O Jantar das Máscaras
O mármore do saguão do Hotel Imperial não recebia Arthur Vale; ele o desafiava. O ar-condicionado, gélido, era uma barreira física contra os que não pertenciam àquele andar. Ao seu lado, Beatriz Alencar mantinha a postura, mas a rigidez de seus ombros denunciava o peso de cada olhar que recaía sobre eles. Ali, entre o brilho das joias de elite e o perfume caro que mascarava o odor de falências iminentes, Arthur era o elemento disruptivo.
Quando atravessaram as portas duplas, o zumbido das conversas cessou. Ricardo Sampaio, o magnata que até poucas horas atrás ditava o destino da costa, estava no centro do círculo de poder. Ao ver Arthur, seu riso, forçado e estridente, morreu na garganta.
— Arthur Vale? — a voz de Sampaio ecoou, um desafio público desenhado para humilhar. — A segurança deste evento caiu tanto assim? Ou o lixo agora tem entrada garantida por cota de caridade?
Beatriz deu um passo à frente, os dedos brancos de tanto apertar a bolsa, mas Arthur a deteve com um toque firme. Ele não buscou a validação da multidão; seus olhos, frios e precisos, focaram na gravata desalinhada de Sampaio.
— O lixo, Ricardo, é o que resta quando a falência técnica é notificada — Arthur respondeu, o tom baixo, carregado de uma autoridade que fez o ar vibrar. — Você não está aqui para celebrar. Está aqui para se despedir.
Sampaio empalideceu, a fachada de invulnerabilidade trincando. Arthur guiou Beatriz para o bar, onde o Dr. Mendes, advogado de Sampaio, tentava disfarçar seu nervosismo com uma dose dupla de uísque. A aproximação de Arthur foi um movimento de xadrez: ele não atacou, apenas se posicionou onde Mendes não pudesse fugir.
— A cláusula 4.2 é um erro administrativo, Vale — sibilou Mendes, o sorriso predatório falhando. — Retire a denúncia ou garanto que sua estada nesta cidade será curta.
Arthur pediu um drink, seus movimentos lentos e deliberados. — Erro administrativo? A responsabilidade solidária, Mendes, é uma via de mão única. O senhor assinou a auditoria. Se Sampaio cai, o escritório do senhor responde pelo rombo. A escolha é simples: entregue a lista de laranjas que financiaram a licitação, ou a falência técnica de Sampaio levará o senhor junto.
O advogado recuou, o copo tremendo. O vácuo de poder foi preenchido pela presença de Arthur. Minutos depois, ele foi conduzido à sala privada do Conselho Superior. O ambiente era um tribunal. Quatro homens, os verdadeiros donos daquela costa, aguardavam com a frieza de entomologistas.
— O senhor causou um transtorno considerável — disse o membro mais velho. — Estabilidade é o que precisamos, não sabotagens.
Arthur não sentou. Ele permaneceu de pé, ocupando o centro da sala. — Estabilidade é um termo curioso para um esquema de extorsão que drenou ativos de famílias tradicionais. O que chamam de sabotagem é apenas a lei sendo aplicada a peões que já não servem mais ao propósito de vocês.
O silêncio foi absoluto. Arthur inverteu a sabatina, expondo o conhecimento sobre os fluxos financeiros que o Conselho acreditava estarem enterrados. Ele não pediu permissão para falar; ele ditou os termos.
De volta ao salão, Arthur se aproximou de Mendes novamente. O cristal da taça estalou sob a pressão dos dedos de Arthur.
— O leilão foi apenas o aquecimento — sussurrou Arthur, audível apenas para Mendes e Beatriz. — Mas a sua conta na Suíça, aquela aberta sob o nome de sua falecida esposa para ocultar as propinas da gentrificação... ela não é tão invisível quanto você imagina.
O rosto de Mendes tornou-se uma máscara de terror. Ele buscava ar, a gravata parecendo um laço. Arthur mantinha o olhar fixo, um predador que finalmente havia encurralado o líder da alcateia. Sampaio, no canto do salão, observava tudo, alheio ao fato de que, lá fora, as viaturas da Polícia Federal já se posicionavam, prontas para o amanhecer.