Blood in the Records
O ar no porão da loja de chá era denso, saturado pelo cheiro de anis estrelado e o mofo de décadas de silêncio. Lucas Chen mantinha o livro-razão aberto sob a luz amarelada de uma luminária de mesa, os dedos travados sobre as anotações cifradas de seu pai. O prazo de vinte e quatro horas não era apenas um aviso legal; era uma contagem regressiva para a sua aniquilação social. Mei estava encostada na entrada estreita, os braços cruzados, observando-o com uma vigilância que ele não conseguia decifrar. Ela não se movia, mas cada respiração sua parecia medir o quanto Lucas estava disposto a sacrificar.
— Você está procurando por números, Lucas — a voz de Mei era baixa, cortante como o roçar de seda em pedra. — Mas o que você tem aí não é contabilidade. É uma confissão de dívidas que nunca foram contraídas, apenas fabricadas para que o consórcio pudesse reclamar o terreno por centavos.
Lucas virou a página, a caligrafia do pai tornando-se errática nas últimas entradas. Ele apontou para uma série de débitos assinados por nomes que ele reconhecia das fachadas das lojas lá em cima: a padaria, o empório, o armarinho.
— Isso não faz sentido — Lucas retrucou, a voz ganhando uma aspereza que ele não pretendia. — Por que o consórcio drenaria o próprio bairro? Se eles destruírem o patrimônio dos Chen, o valor do quarteirão despenca.
Antes que Mei pudesse responder, a porta da frente rangeu, seguida pelo som pesado de passos que não pediam permissão. O Sr. Wei entrou no salão principal. Ele não olhou para os produtos nas prateleiras; seus olhos, frios e calculistas, fixaram-se diretamente no porão. Wei não precisava gritar; sua presença era uma pressão atmosférica que tornava o ar rarefeito.
— O tempo está correndo, Lucas — disse Wei, sua voz grave ressoando entre as paredes de madeira quando ele desceu os degraus. Ele parou a poucos centímetros de Lucas, ignorando a existência de Mei. — O consórcio não se importa com a sua biografia, nem com a distância que você manteve desta rua. Eles querem o terreno. A sua sucessão é a única coisa que impede a demolição imediata do bloco. Se você assinar, o bairro sobrevive. Se não, você será o responsável pela ruína de todos eles.
Wei deixou um novo volume, o livro-razão original, sobre a mesa. Era mais pesado, encadernado em couro gasto. — Aqui estão os nomes — disse Wei, virando-se para sair. — E aqui está o preço do seu pertencimento.
Quando a porta se fechou, o silêncio voltou, mas era um silêncio diferente, carregado de uma culpa que Lucas não sabia que possuía. Mei aproximou-se, movendo uma estante pesada para revelar um painel falso na parede. Ela retirou uma caixa de madeira escura e a empurrou pelo balcão. Dentro, não havia apenas recibos, mas fotografias desbotadas de homens que ele reconhecia das vitrines do bairro, todos marcados com selos de cera vermelha. O nome de seu pai estava lá, no topo, mas a caligrafia era diferente, apressada, um pedido de socorro.
Lucas folheou as páginas do livro que Wei acabara de entregar. Na página setenta e dois, seus olhos travaram. Uma transação datada de cinco anos atrás, um mês antes de sua partida definitiva, carregava seu próprio nome. "Contribuição para o fundo de manutenção de linhagem". O suor frio escorreu por sua nuca. Ele nunca fora um estranho; fora um beneficiário, um elo na corrente que ele jurara nunca tocar.
Ele olhou para Mei, buscando uma negação que ela não deu.
— Você acha que o seu pai era apenas um homem que falhou nos negócios? — a voz de Mei era um sussurro de dor. — Ele foi silenciado porque se recusou a entregar o que o consórcio exige desde sempre: a chave para o que está enterrado sob esta fundação. Ele não morreu de causas naturais, Lucas. Ele foi removido pelo sistema que agora, quer você queira ou não, você precisa gerenciar.