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Chapter 4: A Máscara de Porcelana

Arthur infiltra-se em um evento de gala para desestabilizar os conselheiros de Otávio. Ele convence Mendes, um conselheiro chave, a mudar de lado ao revelar a extensão do rombo financeiro e a ameaça iminente da CVM. A descoberta de que a sede da empresa é a garantia de uma dívida secreta ligada à sua mãe eleva o conflito a um nível pessoal.

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A Máscara de Porcelana

O salão do Hotel Fasano exalava uma opulência que cheirava a desespero disfarçado de champanhe vintage. Arthur Valente ajustou os punhos da camisa, observando o reflexo de Otávio no espelho de cristal do bar. O patriarca estava cercado por três dos maiores acionistas da holding, todos sorrindo com os dentes, mas mantendo as mãos longe das taças, como se temessem que o vidro pudesse estilhaçar sob a pressão daquela sala. Arthur não fora convidado, mas sua presença era o peso que impedia o salão de flutuar na ilusão de Otávio. Ele caminhou com a cadência de quem conhece cada centímetro daquele mármore, sentindo os olhares de reprovação dos convidados que ainda o viam como o herdeiro descartável.

— Você não deveria estar aqui, Arthur — a voz de Otávio não era um grito, mas um corte preciso, baixo o suficiente para que apenas o círculo imediato ouvisse. O patriarca sustentava a máscara de porcelana, mas havia uma micro-trepidação em sua mandíbula. — Sua presença é um insulto à seriedade desta noite.

— A seriedade, Otávio? — Arthur sorriu, um gesto frio que não chegou aos olhos. — As ações da Valente caíram 4% desde a abertura. O mercado sabe que a auditoria começou, e eles sabem que a cláusula 14-B está travada. Você está servindo champanhe para convidados que já começaram a farejar o sangue.

Otávio tentou manter a pose, mas o olhar de Mendes, um dos conselheiros mais antigos, vacilou. Arthur percebeu o momento exato em que a autoridade do pai se tornou um traje apertado demais. Ele não esperou pela resposta. Com um aceno sutil, afastou-se, deixando o patriarca cercado por seu próprio silêncio tenso.

Na varanda privativa, suspensa sobre a Avenida Paulista, o ar estava pesado com a tensão estática de um império em colapso. Mendes, cujas mãos tremiam ao segurar seu uísque, tentava manter a postura aristocrática que décadas de servidão à família Valente lhe impuseram.

— Você não entende, Arthur — disse Mendes, a voz embargada por um medo que ele tentava disfarçar com desdém. — Otávio é o pilar. Se ele cair, todos caímos.

Arthur não se virou. Ele estendeu um envelope de couro sintético, rígido e frio. Dentro, não havia ameaças vazias, mas a anatomia da ruína: a trilha contábil que conectava os investimentos em paraísos fiscais ao rombo de 300 milhões que Otávio acreditava ter enterrado sob camadas de contabilidade criativa.

— O pilar está oco, Mendes — retrucou Arthur, sua voz cortante como lâmina. — A auditoria externa não é uma sugestão; é a última barreira contra a liquidação total pelos credores internacionais. Se você votar ao lado dele na próxima reunião, seu nome estará no topo da lista de cúmplices quando a CVM receber o upload automático do sistema. Restam cinco horas e quarenta minutos.

Mendes folheou as páginas com uma pressa nervosa. O horror em seus olhos era a evidência que Arthur buscava. O conselheiro compreendeu, finalmente, que a queda de Otávio não era uma possibilidade, mas um evento físico iminente.

— A família está tentando vender a sede, Arthur — Mendes sussurrou, a voz quase inaudível. — Um negócio ilegal, nos bastidores, para cobrir o rombo. Eles acham que podem passar por cima da 14-B.

Arthur sentiu um calafrio de clareza. Ele conduziu Mendes até o estacionamento subterrâneo, onde o silêncio da cabine de seu carro era absoluto. Arthur entregou o dossiê final, selando o pacto. Ao folhear os anexos, uma nota de rodapé chamou sua atenção: uma referência a uma conta secreta, registrada em nome de sua falecida mãe, usada como garantia para uma dívida impagável. A sede não era apenas um ativo; era o cofre onde Otávio escondia a prova definitiva de que a fortuna Valente nunca foi deles, mas um castelo de cartas construído sobre o patrimônio privado de sua mãe. A batalha agora não era apenas corporativa; era pessoal.

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