O Trono de Vidro
O ar na sala de reuniões da Faria Lima não cheirava a café; cheirava a ozônio e a fim de linha. O silêncio era uma lâmina. Arthur Valente não se sentou. Ele observava a metrópole de São Paulo através do vidro temperado, um mapa de luzes que, em poucas horas, seria redesenhado por suas decisões. Atrás dele, o telão exibia a queda vertical das ações da Holding Valente. O mercado não perdoava a insolvência técnica, e o script de auditoria que ele ativara na abertura da bolsa era um carrasco silencioso.
Roberto Valente, o homem que um dia fora o pilar da elite paulistana, estava encolhido em sua cadeira. Sua pele tinha o tom acinzentado de quem perdeu a última gota de liquidez. Ele empurrou uma pasta de couro sobre a mesa de mogno, as mãos tremendo com uma visibilidade que ele tentava, inutilmente, esconder.
— Isso é um suicídio, Arthur — a voz de Roberto era um sussurro rouco, destituída da autoridade que costumava subjugar conselhos. — O estatuto de 2019 é claro. A diretoria tem o poder de veto. Se você prosseguir, a empresa será liquidada. O conselho ainda me deve lealdade.
Arthur virou-se. Seus olhos eram frios, desprovidos de qualquer resquício de afeto filial. Ele apontou para o monitor, onde o fluxo de caixa para as Ilhas Cayman era exibido em tempo real, rotulado com a assinatura digital de Roberto.
— O estatuto que você cita morreu no momento em que a insolvência técnica tornou a 'poison pill' uma sentença de morte, não uma defesa — Arthur disse, a voz cortante e precisa. — Você não está vetando uma transferência, Roberto. Você está assinando sua própria confissão de desvio perante a CVM. O conselho não deve lealdade a um cadáver corporativo.
A porta da sala se abriu. Beatriz Lemos entrou, o som de seus saltos contra o granito ecoando como tiros em um corredor vazio. Ela não olhou para Roberto. Depositou um tablet sobre a mesa, exibindo a renúncia em massa dos diretores aliados.
— Eles fugiram, Arthur — Beatriz disse, sua voz carregada de uma satisfação contida. — Estão tentando limpar os rastros antes que a Polícia Federal chegue. A holding perdeu 40% do valor em vinte minutos. O mercado está em pânico.
— Deixe que o mercado sangre — Arthur respondeu, sem desviar o olhar do pai. — O que não serve para a nova estrutura deve ser expurgado. Quero a reestruturação dos ativos prioritários finalizada até o meio-dia. Prepare a notificação para a bolsa.
Roberto tentou se levantar, mas suas pernas falharam. Ele olhou para Arthur, buscando o filho que ele tentara descartar como um erro de percurso, mas encontrou apenas um estranho implacável. Arthur colocou um documento sobre a mesa: a renúncia irrevogável e a transferência total de controle.
— A família… nós construímos isso juntos — Roberto implorou, o pânico finalmente rompendo sua fachada.
— Você construiu uma fachada de areia sobre um alicerce de mentiras — Arthur respondeu, estendendo a caneta. — Assine. É a única forma de evitar que a Polícia Federal entre por aquela porta antes das dez da manhã.
O som da ponta de metal arranhando o papel foi o único ruído na sala. Roberto assinou. Com aquele traço, o império que ele usara para tentar enterrar Arthur mudou de mãos. O patriarca estava acabado; sem nome, sem empresa, sem poder.
Arthur guardou o documento na pasta. Beatriz aproximou-se, reconhecendo a nova hierarquia. Ele voltou-se para a janela, observando o skyline de São Paulo. A holding era apenas o primeiro degrau. O verdadeiro jogo, aquele que exigia mais do que apenas o sobrenome Valente, estava apenas começando.