A Guerra de Classes
O ar na sala de reuniões da Faria Lima não era de respeito, mas de paralisia. O cheiro de café frio e a eletricidade estática de contratos rompidos pairavam como uma sentença. Roberto Valente fora escoltado para fora minutos antes, seu rosto uma máscara de descrença enquanto a segurança da holding o conduzia como a um estranho. Arthur Valente, agora posicionado na cabeceira da mesa, observava a tela do projetor. Os gráficos de drenagem de ativos da Apex não paravam de oscilar.
— A CVM foi notificada — Arthur disse, a voz cortante. — O protocolo de suspensão da venda da logística está ativo. Qualquer tentativa de mover fundos agora será registrada como crime federal. Estamos todos no mesmo barco, senhores. Se a holding afundar, o rastro de vocês será o primeiro a ser investigado.
Um conselheiro tentou argumentar sobre estabilidade, mas Arthur o silenciou com um olhar. Ele não buscava consenso; buscava sobrevivência. Quando a sala finalmente se esvaziou, o olhar de Arthur encontrou o de Beatriz Lemos. Ela permanecia na penumbra, um sorriso enigmático que sugeria que a destituição de Roberto era apenas o prelúdio de um caos muito maior.
Eram três da manhã de um domingo quando a verdadeira dimensão do desastre se revelou. No escritório da presidência, Arthur analisava os logs de segurança. A sangria de ativos não havia cessado com a queda do patriarca; ela havia se acelerado.
— Não é um erro de sistema, Arthur — Beatriz disse, aproximando-se com dois copos de espresso. — Roberto está isolado, mas o canal continua aberto. É uma inteligência algorítmica, operando com privilégios de administrador que nem mesmo o presidente deveria ter.
Arthur sentiu um calafrio. Ele não estava lutando contra a incompetência de um pai, mas contra um predador digital desenhado para ser invisível até que o caixa estivesse vazio. Ele lançou o tablet sobre a mesa, revelando o gráfico de hemorragia financeira.
— Dez milhões desviados em uma hora, Bia. O consórcio quer o espólio antes da abertura de segunda-feira. Eles querem que eu seja o rosto da falência pública.
Beatriz inclinou-se sobre a mesa, o perfume caro misturando-se ao cheiro de servidores superaquecidos. — Você ainda acha que o inimigo é o mercado? O consórcio não quer a empresa, Arthur. Eles querem a sua destruição total. Se você não assinar a liquidação forçada, eles vão engolir o que resta e deixar você com a dívida legal.
Arthur percebeu o peso da armadilha. Roberto não havia apenas traído a linhagem; ele havia entregue as chaves do cofre para um fundo que buscava a desintegração total. Enquanto o mercado se aproximava da abertura, o saldo da conta principal da holding oscilava, perdendo frações de milhão em segundos. Ele tentou disparar o protocolo de bloqueio, mas o sistema travou. Uma mensagem de erro em vermelho brilhante ocupou a tela: Acesso negado. Cláusula de liquidação forçada por insolvência ativada.
Arthur percebeu que o fundo externo não estava apenas atacando; ele estava drenando os ativos da empresa em tempo real, usando uma brecha jurídica que ele mesmo, em sua arrogância, não previra. A guerra de classes não era contra o mercado. Era uma emboscada dentro de casa, e o próximo movimento exigiria que ele escolhesse entre salvar o legado ou destruir o sistema que o mantinha refém.