Sombras no Escritório de Vidro
O ar-condicionado do escritório de Ricardo, na Avenida Paulista, zumbia com uma frequência que parecia perfurar os tímpanos de Lucas. Ele observava o homem que lhe ensinara a arquitetura do sucesso corporativo. Ricardo, agora, parecia uma versão desbotada de si mesmo, com as mãos trêmulas repousadas sobre o contrato que Lucas acabara de deslizar pelo mogno.
— Você não pode estar falando sério, Lucas. Isso é uma auditoria ou uma execução? — Ricardo perguntou, a voz falhando na tentativa de manter a autoridade de outrora.
Lucas não respondeu. Deixou o silêncio se estender, observando como Ricardo evitava seu olhar, fixando-se no logotipo da empresa. Para Lucas, aquele escritório não era mais um santuário de ambição; era uma vitrine de mentiras. Ele sabia que cada centavo daquela sala, cada bônus que Ricardo recebera na última década, estava registrado no livro-razão da família como um débito de sangue.
— A pergunta não é o que eu estou fazendo, Ricardo, mas o que você negligenciou — Lucas disse, a voz desprovida da hesitação de outrora. — A rede não aceita erros de cálculo. E você, meu caro, é um erro matemático que precisa ser corrigido.
Antes que Ricardo pudesse protestar, a porta se abriu. Mei entrou sem bater, o clique seco de seus saltos contra o granito polido ecoando como um veredito. Ela não olhou para o mentor, apenas para Lucas.
— O Sr. Chen perdeu a paciência com o seu ritmo, Lucas — ela disse, deslizando um envelope pardo sobre a mesa. — O livro-razão não aceita desculpas de quem já assinou a própria sucessão.
Lucas abriu o envelope. Lá dentro, a foto de um homem que ele conhecia desde a infância, um pequeno empresário do bairro, marcado com uma tinta vermelha que parecia fresca. Era a prova de que a rede não apenas cobrava dívidas; ela as fabricava.
— Isso é uma ordem de despejo, Mei. Ele não tem como pagar — Lucas disparou, a mão fechando-se sobre o papel.
— Então você assina, ou o próximo nome na lista será o seu — ela respondeu, fria.
Após a saída de Mei, Lucas não conseguiu permanecer no aquário de vidro. Ele a seguiu, movido por uma desconfiança que queimava mais que a própria dívida. Em um café de fachada austera, ele a observou entregar um envelope lacrado a um emissário do Sr. Chen. Não era um relatório de progresso; era uma lista de suas hesitações. Mei estava jogando dos dois lados, e ele era o ativo descartável sendo avaliado.
De volta ao escritório, o peso do livro-razão parecia maior. Lucas abriu as páginas amareladas, buscando qualquer brecha. No fundo da lombada, escondida sob uma aba de couro costurada à mão, encontrou uma página que não seguia o padrão. Não havia nomes de devedores, apenas uma fotografia desbotada de seu pai em frente a um armazém em Chinatown. Abaixo, uma única data, escrita com a mesma tinta nanquim, mas com um traço de rubro sangue: amanhã.
O estômago de Lucas deu um nó. A rede não planejava apenas cobrar a dívida; ela planejava liquidar o legado de seu pai. E, ao olhar a data, ele percebeu que o cronômetro para sua própria sobrevivência havia acabado de começar a rodar.