O Genro Descartável
O vidro temperado da sala de reuniões da Construtora Albuquerque, no vigésimo andar, não servia apenas para isolar o ruído da cidade; servia para exibir o domínio da família sobre a orla de Florianópolis. Lá embaixo, a Ponte Hercílio Luz parecia uma miniatura de brinquedo, algo que Otávio Albuquerque poderia comprar, reformar ou demolir com um estalar de dedos.
Rafael Mendes estava parado no canto, invisível como o mobiliário de design italiano. Ele não era um sócio; era um adereço de casamento que, por um erro de cálculo, havia acabado sentado à mesa de decisões.
— O leilão da orla não é um playground para genros inexperientes, Rafael — a voz de Otávio cortou o ar condicionado, fria e precisa. Ele não olhou para o genro. Seus olhos estavam fixos em Bruno, seu filho, que ajustava a gravata com um sorriso de escárnio. — A procuração que você detém para este projeto será revogada hoje. Bruno assumirá a frente da licitação.
O silêncio que se seguiu foi pesado, saturado de desprezo. Juliana, esposa de Rafael, manteve o olhar fixo no tablet. Ela não defendeu o marido. Para ela, a lealdade ao pai era a única moeda de troca segura em um mundo onde o status era a única métrica de valor.
— Não podemos correr o risco de um erro técnico ou de uma assinatura mal colocada — continuou Otávio, descartando Rafael com um gesto de mão, como quem espanta uma mosca. — Bruno tem o pedigree necessário para lidar com os investidores. O mercado não perdoa amadores.
Rafael sentiu o olhar de Bruno, um brilho de triunfo mesquinho. O cunhado inclinou-se para frente, exibindo o relógio de luxo que Rafael, em sua posição de "genro descartável", jamais poderia ostentar.
— O café está morno. Como sua capacidade de negociação — provocou Bruno, rindo para os outros sócios. — Deixe isso aí e suma. Temos problemas reais. O edital exige a comprovação de liquidez imediata até às 14h de amanhã. Se não tivermos o aporte, a prefeitura passa a concessão para os rivais. Você é apenas um garçom de luxo nesta mesa agora. Por que ainda está aqui?
Rafael não respondeu. Ele não sentia raiva; a raiva era um luxo de quem ainda tinha algo a perder. Ele apenas assentiu, um movimento mecânico, e retirou-se. Enquanto a porta de vidro se fechava, ele ouviu a risada de Bruno ecoar, um som seco e desprovido de qualquer humanidade.
Ele não foi para casa. Ele foi para a sala de arquivos, onde o dossiê da licitação repousava sobre a mesa de mogno. O documento era a espinha dorsal do império Albuquerque, um volume de quinhentas páginas que deveria garantir a hegemonia da família na próxima década.
Rafael abriu a pasta. Seus dedos, treinados por anos de observação silenciosa, varreram as folhas com uma precisão cirúrgica. Ele não buscava erros de digitação. Ele buscava a falha na estrutura.
Na página 42, na seção de impacto ambiental, ele parou. O relatório geotécnico anexado ao projeto utilizava dados de uma sondagem realizada há cinco anos, em um setor adjacente, ignorando deliberadamente a erosão acelerada causada pelas correntes marítimas da última temporada. Era uma falha técnica fatal. Uma negligência que, se exposta, invalidaria toda a proposta dos Albuquerque perante a prefeitura.
Otávio não estava apenas arrogante; ele estava tecnicamente cego. Rafael fechou a pasta. O ar da sala parecia mais leve. Ele tinha em mãos a chave para destruir o império Albuquerque ou, se jogasse com a precisão de um mestre, a alavanca para assumir o controle total do jogo. O leilão não seria vencido pelos Albuquerque; seria vencido por quem detivesse a verdade sobre a areia sob seus pés.