O Primeiro Golpe: A Queda da Máscara
O salão de leilões da Orla, uma caixa de vidro suspensa sobre o Atlântico, fervilhava com a elite predatória da construção civil. O ar-condicionado, potente demais, não conseguia dissipar a eletricidade estática da ganância. Roberto Lacerda, o patriarca cuja voz habitualmente ditava o ritmo do mercado, estava no centro do palco, o rosto tingido por um tom de púrpura que ele tentava, inutilmente, disfarçar com a postura de titã.
— Duzentos e oitenta milhões — anunciou Roberto, a voz trovejando sobre o salão. — Pela área da orla. Um valor que encerra qualquer discussão.
Beatriz, ao seu lado, mantinha o sorriso de porcelana, embora seus olhos traíssem a tensão enquanto ela observava a tela do terminal bancário da empresa. Arthur, posicionado três passos atrás, observava a cena com a imperturbabilidade de um cirurgião. Ele sentia o pulsar do sistema sob seus dedos, a rede de servidores da Lacerda sob seu controle absoluto, paralisada pelo bloqueio administrativo que ele orquestrara na calada da noite. Roberto, alheio à ruína técnica que o aguardava, estendeu o cartão corporativo para o operador do leilão com um gesto de soberba.
— Confirme a transferência — ordenou Roberto.
O operador digitou o código. A tela, em vez do verde da aprovação, brilhou com um vermelho estático: Transação Recusada. Contas sob auditoria interna.
O silêncio que caiu sobre a sala foi absoluto, cortante. Roberto franziu a testa, o suor frio brotando em sua têmpora.
— Deve haver um erro. Tente novamente. A Lacerda tem lastro.
— O sistema não autoriza, senhor — respondeu o operador, visivelmente desconfortável sob o olhar dos outros magnatas. — A liquidez da construtora foi suspensa por ordem da auditoria.
Beatriz deu um passo à frente, a voz trêmula.
— Pai, o que está acontecendo?
Arthur avançou. Ele não esperou convite. Caminhou até o centro da mesa, onde Roberto, pela primeira vez na vida, parecia pequeno. Ele abriu sua pasta de couro e retirou um envelope pardo, lacrado. Não era um documento comum; era a prova da fraude ambiental que Roberto tentara enterrar com subornos e promessas vazias.
— Não há erro, Roberto — disse Arthur, sua voz calma, desprovida de qualquer tremor submisso. — A empresa não tem liquidez porque o sistema foi bloqueado. E este terreno não será seu, porque a licitação está viciada. Este envelope contém a prova da nulidade contratual que protocolarei agora mesmo junto ao consórcio de investidores.
Roberto tentou avançar, os punhos cerrados, mas Beatriz o segurou pelo braço, o choque estampando seu rosto. O patriarca, antes intocável, agora era observado por seus pares como um animal ferido. Arthur não parou. Ele se dirigiu ao leiloeiro e depositou um cartão de crédito pessoal — um que Roberto nem sabia que ele possuía — sobre a mesa.
— O consórcio A.L. Estratégias assume o lance — afirmou Arthur.
O leiloeiro, após uma rápida checagem que confirmou a solvência imediata, bateu o martelo. O som do mogno contra a madeira ecoou como um tiro de misericórdia. O império Lacerda, naquele instante, havia desmoronado em público.
Enquanto os seguranças escoltavam Roberto para fora do salão sob os olhares de desdém de seus antigos aliados, Beatriz ficou para trás, paralisada. Ela olhou para Arthur, o homem que ela tratara como um acessório descartável por anos, e viu, pela primeira vez, a frieza de um predador que ela nunca soube que habitava sua própria casa. A fachada de submissão de Arthur havia se dissolvido, revelando algo muito mais perigoso por baixo. Ela deu um passo hesitante, a voz quase um sussurro de pavor:
— Arthur... quem é você?