O Contra-Ataque do Herdeiro
O ar no Restaurante Imperial não cheirava mais a tradição; cheirava a desespero e a produtos de limpeza baratos. Arthur atravessou o salão principal, seus sapatos ecoando com uma precisão que fazia os garçons desviarem o olhar. A demissão de Souza, o gerente que por anos servira como os olhos e ouvidos de Ricardo, deixara um vácuo de poder que Arthur preenchia com um silêncio absoluto e cortante.
Na cozinha, o coração da casa, Helena tentava conferir o inventário. Suas mãos tremiam sobre as planilhas. Ela não era mais a matriarca soberana; era uma prisioneira de seus próprios segredos. Arthur não perdeu tempo com cortesias.
— Onde está o registro de movimentação do Viana? — Arthur perguntou, a voz baixa, mas carregada de uma autoridade que não admitia recusa. Ele depositou um dossiê sobre a mesa de aço inox. O selo da corregedoria, impresso em relevo, brilhava sob a luz fria.
Helena empalideceu. — Ricardo vai voltar com os advogados, Arthur. Se você continuar com essa auditoria, Viana vai destruir o que resta da nossa reputação. Ele é um homem perigoso.
— Viana não é um investidor, Helena. Ele é uma fachada para lavagem de dinheiro. O Ministério Público já está rastreando cada centavo que entrou nesta conta. Eu não estou auditando; estou fechando o cerco. Se você quer salvar este legado, preciso da chave do cofre pessoal de Ricardo. É lá que estão as provas da triangulação com o conselho municipal.
Helena hesitou, o conflito estampado em seu rosto, mas a firmeza de Arthur era um âncora. Ela retirou a pequena chave de uma corrente sob a blusa e a entregou. O tabuleiro acabara de mudar de mãos.
*
Minutos depois, a sala de reuniões da diretoria fervilhava com uma tensão insuportável. Ricardo batia a palma da mão na mesa de mogno, ignorando o silêncio desconfortável dos três conselheiros municipais. Viana, o investidor externo, ajustava a gravata com uma calma artificial, mas seus olhos denunciavam o nervosismo.
— A ordem de suspensão é uma falha técnica — Ricardo vociferou. — O leilão será retomado amanhã. O capital do Viana está garantido.
A porta abriu-se com um estalo seco. Arthur entrou, caminhando com a calma de quem possui o título de propriedade do chão que pisa. Ele contornou a mesa e sentou-se na cabeceira, o lugar que antes era intocável.
— A reunião não está aberta a agregados — Ricardo disparou, o rosto congestionado de fúria. — Saia, ou chamarei a segurança.
Arthur não respondeu com gritos. Ele abriu o dossiê, expondo os registros bancários de Viana: transferências cíclicas para contas fantasmas no exterior, as mesmas usadas para lavar propina do conselho. O silêncio na sala tornou-se mortal.
— O dinheiro que você trouxe, Viana, não é investimento. É evidência criminal — Arthur declarou. — Eu não estou aqui como genro. Estou aqui como o credor prioritário que detém o poder de veto. O conselho municipal já foi notificado sobre as irregularidades neste contrato.
Ricardo perdeu o controle. Ele avançou, tentando uma agressão física, mas Arthur imobilizou seu braço com uma destreza fria. Foi nesse momento que o som de sirenes cortou o ar lá fora. A polícia, previamente acionada, entrou no recinto. Viana foi algemado diante dos conselheiros, cujos rostos empalideceram ao perceberem a extensão do desastre. Ricardo assistiu, paralisado, ao colapso de seu último trunfo.
*
Com o conselho em pânico e o investidor sendo escoltado, Arthur assumiu o comando total. Ricardo, em um último ato de desespero, tentou sabotar o estoque da cozinha, mas foi flagrado por Helena. A matriarca, finalmente enxergando a verdadeira face do filho, travou seu caminho. Arthur, do outro lado do corredor, observava a cena. Helena olhou para ele em busca de orientação, reconhecendo-o como o único que poderia salvar o legado, enquanto Ricardo era banido da propriedade.