A Licitação Viciada
O ar na sala de reuniões do Restaurante Imperial não era apenas pesado; era tóxico. O cheiro de mogno polido e o aroma residual de especiarias ancestrais, que outrora simbolizavam a glória da família, agora serviam apenas como cenário para uma execução financeira. Arthur estava parado no corredor, a silhueta projetada contra a luz fria do saguão. Ele não precisava entrar para ouvir a sentença.
— O genro não precisa estar aqui — a voz de Ricardo cortou o silêncio, afiada como uma lâmina de desossar. — Ele não tem capital, não tem linhagem e, francamente, não tem cérebro para entender o que estamos decidindo. Tire-o daqui. O leilão começa em quarenta e oito horas e não quero distrações.
Arthur sentiu o peso do smartphone no bolso interno do paletó. Era uma peça de metal e silício que valia mais do que todo o mobiliário daquela sala. O arquivo digital — a prova irrefutável de que Ricardo havia manipulado a avaliação do imóvel para favorecer uma rede de fast-food — era sua arma. Ele não a sacaria agora. O momento ainda não era o ideal.
Ricardo abriu a porta com um solavanco, ajeitando as abotoaduras de ouro com um gesto que beirava o escárnio. Ele olhou para Arthur como se visse uma mancha no carpete persa que o restaurante ainda se esforçava para manter.
— Você ouviu, Arthur. Saia. Vá lavar pratos ou fazer qualquer coisa que seja útil para alguém do seu nível — Ricardo disparou, fechando a porta com um estrondo que fez o relógio de parede vibrar.
Arthur não recuou. Ele caminhou até o corredor, onde o tique-taque incessante do relógio de pêndulo ditava o ritmo da ruína familiar. Através de uma fresta na porta entreaberta, ele observou Ricardo espalhar documentos sobre a mesa. O herdeiro legítimo não estava apenas revisando contratos; ele estava limpando rastros, enviando a última rodada de lances viciados para os abutres que aguardavam a falência do estabelecimento.
Arthur viu Ricardo esconder um envelope pardo, selado com a insígnia da firma de advocacia que facilitava a fraude. Era o documento de avaliação original, a prova de que o valor real do Imperial era o triplo do que estava sendo declarado. Sem esse documento, o leilão era um roubo legalizado.
Helena entrou na sala, o rosto pálido, a postura rígida como se estivesse segurando o mundo para não desabar. Seus olhos encontraram os de Arthur no corredor. Havia uma súplica ali, oculta sob camadas de orgulho ferido. Ela sabia da fraude. Estava sendo chantageada por Ricardo, acorrentada pelo medo de que a ruína financeira da família se tornasse pública.
— Ele tem razão, Arthur — a voz de Helena falhou por um milésimo de segundo ao notar a calma gélida no olhar do genro. — Saia. Não piore as coisas.
Arthur deu um passo à frente, entrando na sala sem ser convidado. O ar mudou. Ricardo parou de digitar, um sorriso predatório surgindo em seus lábios.
— Você tem uma hora, Arthur — Ricardo disparou, a voz fria como a lâmina de uma faca de chef. — Assine a renúncia de qualquer direito sobre a propriedade familiar. Se o seu nome estiver nos registros quando o leilão for fechado, eu garanto que você sairá desta casa sem nem a roupa do corpo. E, acredite, não serei gentil como da última vez.
Ricardo não sabia que, enquanto ele brincava com papéis, Arthur já havia acessado as contas vinculadas à dívida do restaurante. O jogo não era mais sobre quem tinha a linhagem; era sobre quem detinha os juros.
— A renúncia é uma proposta interessante, Ricardo — Arthur respondeu, sua voz calma e desprovida de qualquer tremor. — Mas você esqueceu de verificar quem realmente detém a dívida que está sendo leiloada.
Ricardo congelou. O silêncio na sala tornou-se absoluto, pesado demais para ser ignorado. O relógio na parede marcou uma hora. O tempo de Ricardo estava acabando, mas o de Arthur estava apenas começando.