A Reunião Final
A fachada do Solar dos Lemos parecia um cenário de guerra. O sol da tarde batia contra as vidraças históricas, mas o brilho era ofuscado pelo reflexo das lentes das câmeras de TV e pelo movimento agressivo de dois seguranças da Apex Urban que bloqueavam a entrada principal. Uma faixa amarela de "Área em Risco de Desabamento" fora esticada ilegalmente sobre a entrada principal, uma manobra midiática calculada para afugentar a clientela e forçar a demolição antes do fim do dia. Arthur subiu os degraus de pedra com passos cadenciados, ignorando os flashes que insistiam em capturar sua expressão neutra. Ao seu lado, Beatriz mantinha a postura rígida, o rosto pálido pela descoberta da traição de seu próprio pai. Ela não disse uma palavra, mas a mão dela, trêmula, buscava o apoio do braço de Arthur.
— O senhor não pode entrar, Arthur. A ordem é de interdição total — um dos capangas, um homem de ombros largos e terno barato, bloqueou o caminho. Seu sorriso era um escárnio, uma tentativa de humilhação pública que visava reduzir o genro descartável a um intruso.
Arthur parou. O silêncio que se seguiu foi denso, carregado pela expectativa da multidão de repórteres. Ele não levantou a voz. Em vez disso, tirou do bolso interno do paletó uma pasta de couro e, com um movimento preciso, exibiu o carimbo da Secretaria de Urbanismo.
— A interdição é ilegal — a voz de Arthur era um bisturi cortando o ruído da rua. — O Solar dos Lemos foi oficialmente tombado como patrimônio histórico há menos de uma hora. Qualquer tentativa de obstruir a entrada ou iniciar demolições não autorizadas resultará em prisão imediata por crime contra o patrimônio público. Aqui estão as cópias autenticadas. Se quiserem ser os primeiros a serem algemados pela polícia que já está a caminho, continuem bloqueando a porta.
Os seguranças recuaram, o pânico substituindo o escárnio. A multidão, antes ávida pelo sangue da família, agora voltava suas lentes contra os funcionários da Apex, cujas ordens de demolição tornaram-se, subitamente, papéis sem valor. Arthur guiou Beatriz para dentro, deixando o caos para trás.
No escritório, o cheiro de mogno antigo e desespero era insuportável. Teodoro estava sentado atrás da mesa de carvalho, as mãos trêmulas escondidas sob o tampo, enquanto Beatriz, com a postura de quem perdera a última ilusão, lançou o dossiê sobre o couro verde. As páginas deslizaram até baterem contra a xícara de café intocada do patriarca.
— O laudo técnico é uma fraude, pai — a voz de Beatriz era um fio de aço. — Você assinou a ruína do nosso legado para garantir uma comissão de corretagem da Apex Urban. Onde você estava com a cabeça?
Teodoro tentou um sorriso condescendente, a máscara de autoridade que usara por décadas.
— Beatriz, querida, você não entende o mercado. O Solar estava sangrando. Eu apenas tomei uma decisão pragmática.
— Você não salvou nada — a voz de Arthur surgiu das sombras. — Você vendeu o coração da nossa história por um valor que mal cobriria as dívidas que você ocultou. E não se preocupe com o controle. Eu já transferi a gestão operacional para uma holding sob meu comando. Você não tem mais autoridade para assinar sequer um menu, quanto mais o destino deste restaurante.
Teodoro levantou-se, o rosto congestionado de fúria, mas Arthur nem se deu ao trabalho de encará-lo diretamente. Ele já tinha o próximo alvo.
O encontro com Marcelo Valente, CEO da Apex Urban, aconteceu em um restaurante de luxo, um ambiente privado onde o poder era medido pelo silêncio. Valente entrou sem pressa, um predador que acabara de encontrar uma presa familiar.
— Arthur, o genro invisível dos Lemos. Devo admitir, o esquema do tombamento foi um toque de mestre. Quase engoli a isca de que você era apenas um marido desesperado.
Arthur deslizou o documento de tombamento pelo tampo de mogno polido.
— O jogo acabou, Valente. Assine a desistência da hipoteca e podemos encerrar isso sem que a imprensa saiba quem realmente está por trás das propinas.
Valente soltou uma risada seca, inclinando-se para a frente, diminuindo a distância entre eles. Seus olhos não demonstravam medo, apenas uma curiosidade gélida.
— Você realmente acha que uma carimbada da prefeitura me assusta? Eu conheço o seu jogo, Arthur. Ou melhor, eu conheço você. Lembro-me bem do seu tempo no mercado financeiro, antes de você desaparecer e se enterrar nesta família de falidos. Você não é um genro descartável, é um player que perdeu tudo e está tentando reconstruir um império com as migalhas dos Lemos. A questão é: o que a Beatriz fará quando descobrir que o marido dela é um dos homens mais perigosos que já passou por Wall Street?