Novel

Chapter 1: O Garçom da Própria Família

Arthur, tratado como um serviçal no restaurante de sua própria família, descobre que o sogro e o sócio Ricardo estão fraudando um laudo técnico para desvalorizar e vender o Solar dos Lemos. Ele recupera a prova da fraude no escritório, mas é encurralado por Ricardo antes de conseguir sair.

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O Garçom da Própria Família

O cheiro de azeite trufado e carne selada no 'Solar dos Lemos' não era, para Arthur, um aroma de prestígio. Era o odor de uma cela de luxo. Ele ajustou o colete de garçom, sentindo o tecido barato pinicar a pele enquanto o salão fervilhava com a elite da cidade. Na mesa principal, o sogro, o patriarca da família, comandava o jantar com um charuto caro entre os dedos, alheio à presença de Arthur, exceto quando precisava de mais gelo ou vinho.

— O vinho, Arthur. E tente não derramar dessa vez — Ricardo, o sócio da família, disparou sem desviar o olhar da conversa sobre a venda do imóvel. A risada que se seguiu, vinda de investidores de alto nível, não era de escárnio aberto, mas de indiferença absoluta. Para eles, Arthur era parte da mobília, um acessório descartável da linhagem Lemos.

Arthur serviu a taça com precisão cirúrgica, o pulso firme apesar da náusea. Beatriz, sua esposa, evitava seu olhar, concentrada em validar a narrativa de que o Solar era um peso morto. Ela parecia aliviada em se distanciar da imagem do marido reduzido a um serviçal.

— O Solar não é mais o que era — o sogro proclamou, batendo a mão sobre a mesa de carvalho. — Com a dívida acumulada, a única saída é o leilão. O laudo técnico é claro: a estrutura da cozinha histórica é um risco. Vendê-lo agora é uma questão de responsabilidade com o legado.

Arthur, mantendo a cabeça baixa, notou o movimento de Ricardo. O sócio entregou um envelope pardo ao sogro, acompanhado de um sorriso de cumplicidade que não condizia com uma crise financeira. Aquele sorriso não era de quem salvava um negócio, era de quem o abocanhava. Arthur não era apenas o genro descartável; ele era o único que ainda conhecia a planta original do prédio e a real saúde financeira da operação.

Minutos depois, aproveitando o caos da sobremesa, Arthur subiu as escadas de serviço. O cheiro de temperos ancestrais, o coração daquele império, parecia sufocá-lo. Ele alcançou a porta de mogno do escritório. A maçaneta cedeu com um estalo seco. O cômodo estava mergulhado na penumbra.

Arthur vasculhou a gaveta superior. Lá estava: o Laudo de Avaliação do Imóvel. Ele abriu o documento, seus olhos correndo pelas linhas com a frieza de um cirurgião. O laudo apontava uma falha estrutural catastrófica, o motivo da desvalorização forçada. Mas, ao virar a última página, a farsa revelou-se: a assinatura do perito era uma falsificação grosseira, e o carimbo de autenticação pertencia a uma empresa de fachada controlada pelo próprio sogro. O patriarca estava sabotando o legado da linhagem para vender o Solar para Ricardo por uma fração do valor real.

Com o documento incriminatório contra o peito, Arthur saiu do escritório, mantendo o passo firme. Ele não era mais o homem que abaixava a cabeça. Ao cruzar o corredor que levava à saída dos fundos, uma silhueta bloqueou seu caminho. Ricardo. O sócio, com aquele sorriso de dentes brancos, encostou-se no batente da porta, bloqueando a única rota de fuga.

— Onde pensa que vai, garçom? — a voz de Ricardo era um veneno disfarçado de gentileza. Ele olhou para o volume sob a camisa de Arthur. — Você parece ter encontrado algo que não deveria. Ou talvez tenha descoberto que não serve nem para servir mesa, nem para ser um Lemos.

Arthur parou, o silêncio gélido emanando dele, uma postura que fez a arrogância de Ricardo oscilar por um segundo. Ele sabia que o jogo de poder havia mudado. A guerra pelo Solar dos Lemos não seria vencida na mesa de jantar, mas nos tribunais e nos bastidores que ele acabara de invadir. Ricardo sorriu, convencido de que Arthur não teria coragem de usar o documento contra a própria família.

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