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Chapter 6: O Escândalo que Ameaça Tudo

Capítulo 6: Isabela vaza informações para a imprensa sobre o noivado suspeito. Rafael confronta a irmã na sede da empresa, decide dar entrevista coletiva defendendo Laura como a mulher da sua vida. Laura assiste chocada de casa. Rafael aparece exausto à porta dela à noite. O quase-beijo no corredor e o silêncio carregado no carro mantêm a tensão entre proteção pública custosa e o segredo de Mateus.

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O Escândalo que Ameaça Tudo

O celular vibrou no porta-copos do Mercedes. As rodas cortavam poças na Avenida Atlântica, ainda impregnadas do cheiro de xarope infantil e do olhar que Laura deixara no corredor: “dor que nunca contei a ninguém”. Rafael quase ignorou a chamada. O nome na tela não permitia.

— Isabela.

A voz da irmã irrompeu sem preâmbulos.

— Você perdeu o juízo? A coluna do Lauro já circula: “Noivado suspeito dos Albuquerque: herdeiro troca aliança por ex-amante endividada”. Tem foto sua saindo do prédio dela à uma da manhã. Depois de cancelar a gala por “motivos pessoais” e declarar que o noivado é real. O conselho está em polvorosa. Papai recebeu três ligações de acionistas duvidando da sua cabeça para a presidência.

Rafael apertou o volante. O couro rangeu.

— Eu assumi o cancelamento porque era o certo. Laura precisava ficar com o filho doente. Não vou usar uma criança como escudo público.

— Filho? — A voz de Isabela desceu, afiada. — Que filho, Rafael? Você sabia que ela tem um menino de quatro anos escondido? Ou isso também veio no pacote das dívidas que você quitou?

O silêncio dentro do carro endureceu. Rafael não respondeu. Não podia. A informação que a irmã atirava como granada era exatamente o que ele evitava nomear desde que vira o corredor dos quartos. O Mercedes fez a curva para a ponte rumo a São Paulo com força excessiva. A rachadura com Isabela já não era ameaça. Era fato.

A sede da Albuquerque brilhava só no 28º andar. Rafael empurrou a porta da sala de reuniões. Isabela esperava de pé, tablet na mão, tailleur impecável contra olhos vermelhos de quem não dormira.

— Você vazou a matéria — disse ele, fechando a porta com um clique seco.

— Eu só acelerei o que você provocou. Cancelou o evento alegando prioridade pessoal e depois declarou o noivado real. Real, Rafael? Com ela?

Ele cruzou os braços, maxilar travado. O cheiro de café frio ainda pairava.

— Laura não é “ela”. É a mulher que eu coloquei ao meu lado. Publicamente.

Isabela soltou uma risada seca.

— Colocou? Ou está pagando uma conta antiga? Eu sei mais do que você imagina sobre o passado dela. Quatro anos atrás, quando você a deixou, não foi só briga. Havia dinheiro sumido da nossa contabilidade. Documentos. E agora ela reaparece exatamente quando o conselho questiona sua estabilidade para a presidência.

O golpe acertou em cheio. A dúvida que Rafael carregava desde a gala voltou com peso. Ele se lembrava da traição armada que alguém da família ajudara a orquestrar. Mas e se houvesse mais? E se o menino de quatro anos fosse a peça que faltava?

— Amanhã cedo dou entrevista coletiva — disse ele, voz baixa, sem tremor. — Vou declarar que Laura é a mulher da minha vida e que o noivado não é suspeito. É verdadeiro.

Isabela empalideceu.

— Você vai queimar a herança por causa dela? O conselho já fala em reunião extraordinária. Papai não vai te defender dessa vez.

Rafael sustentou o olhar da irmã. Pela primeira vez em anos, a lealdade familiar pesou menos que a necessidade de proteger Laura.

— Então que convoquem. Eu já escolhi.

Isabela saiu sem bater a porta. O silêncio que deixou era mais alto que qualquer estrondo. Rafael ficou sozinho na sala de vidro, olhando a cidade que acordava lá embaixo. O custo já estava sendo cobrado. E ele pagaria.

Duas horas depois, a sala de imprensa estava lotada. Rafael ajustou o punho da camisa ainda amarrotada da viagem noturna. Não tinha dormido. O médico particular deixara o corredor de Laura havia poucas horas, e agora ele transformava um contrato falso em escudo público.

— Senhor Albuquerque, o cancelamento repentino gerou especulações. Algumas fontes dizem que a noiva tem um passado... complicado. O que tem a dizer?

Rafael encarou o jornalista, voz calma.

— Laura Mendes não é um passado complicado. Ela é a mulher da minha vida. O noivado não foi cancelado por crise — foi adiado porque ela precisou cuidar de algo pessoal. E eu respeito isso. Respeito ela.

Os flashes explodiram. Uma repórter ergueu a mão.

— Mas o vazamento sugere que o relacionamento é de conveniência. Há quem diga que o senhor está encobrindo algo maior.

Ele inclinou-se ligeiramente para frente, olhar cortante.

— Conveniência seria mais fácil. O que sinto por Laura não é conveniente. É real. E quem tentar usar o nome dela para atacar nossa família vai descobrir que eu protejo o que é meu. Sem exceção.

No apartamento no Rio, Laura segurava o celular com as duas mãos, volume baixo para não acordar Mateus que ainda dormia febril no quarto ao lado. Cada palavra de Rafael entrava como ferro quente. Ele não estava apenas cumprindo o contrato. Estava queimando pontes que ela nunca pedira que queimasse. O peito apertava com uma mistura de gratidão e pânico. Quanto tempo até aquele escudo se voltar contra o segredo que ela guardava com a própria vida?

A campainha soou baixa, quase tímida, às onze e meia da noite. Laura abriu a porta ainda com o robe simples que usara para colocar o filho para dormir, cabelo preso num coque frouxo. No corredor mal iluminado, Rafael estava parado, paletó aberto, gravata frouxa, olheiras marcadas pela exaustão de um dia que começara com febre de criança e terminara com microfones.

— Você não precisava vir — disse ela, voz baixa, sem recuar.

Mas também não fechou a porta.

Rafael apoiou uma mão no batente, como se o corpo pedisse apoio.

— Acabei de dizer para o Brasil inteiro que você é a mulher da minha vida. Achei que merecia olhar nos seus olhos depois disso.

O silêncio do corredor engoliu as palavras. Laura cruzou os braços, o anel falso brilhando frio sob a luz do teto.

— Eu vi a entrevista. Você transformou um contrato numa declaração que vai custar caro. Isabela não vai perdoar.

— Isabela já não perdoa há semanas. — Ele deu meio passo à frente, corpo bloqueando a luz do elevador. — Eu escolhi. Publicamente. Sem cláusula que me obrigue a isso.

Laura sentiu o peito apertar. A proteção dele chegava como escudo e como corrente ao mesmo tempo. Ela ergueu o queixo, mantendo o palmo de distância que parecia quilômetro.

— Eu não pedi que você me salvasse, Rafael. Assinei para pagar dívidas, não para você queimar a família por mim.

Ele baixou o olhar por um segundo, depois voltou a encará-la. Havia algo cru ali, sem o verniz de poder.

— Talvez eu esteja cansado de pontes que me separam de você.

O ar entre eles ficou denso. Rafael inclinou-se devagar. Os lábios quase se tocaram. Quase. No último milímetro ele parou, fechou os olhos e recuou, mandíbula rígida.

— Desculpe. A cláusula... e eu não quero que você pense que estou cobrando algo que não combinamos.

Laura soltou o ar que prendia. Abriu mais a porta, gesto silencioso de convite para entrarem no apartamento e conversarem longe do corredor.

Rafael hesitou um segundo, depois aceitou. Quando a porta se fechou atrás deles, o silêncio que os envolveu era carregado de tudo que ainda não fora dito — e de tudo que o escândalo público acabara de tornar inevitável.

Minutos depois, no carro descendo as ruas escuras do Rio, nenhum dos dois falou. O quase-beijo ainda queimava no ar. Rafael olhava a pista à frente, mãos firmes no volante, mas o pensamento já vagava para o encontro marcado no parque com Laura e o menino que ele ainda não podia nomear. O segredo estava ficando pequeno demais para o espaço que o noivado público exigia.

E quando finalmente se rompesse, nada mais seria como antes.

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