Sombras do Passado
O escritório de Beatriz, antes um cenário de ruína iminente, agora exalava a frieza estéril do sucesso. O contrato de reconstrução da cidade estava sobre a mesa, assinado e selado. No entanto, para Arthur, o papel não passava de um alvo pintado nas costas de ambos. Ele observava a Avenida Paulista do 30º andar; a cidade lá embaixo não era mais um labirinto de oportunidades, mas um campo de minas.
— O Fundo Primus evaporou — Beatriz disse, a voz firme, embora seus dedos ainda traíssem uma leve hesitação ao organizar os documentos. — Ricardo está na carceragem da Polícia Federal, mas seus advogados já estão tentando o habeas corpus. E os investidores... eles pararam de responder a qualquer comunicação. É como se tivessem deletado a existência da empresa.
— Eles não deletaram nada, Beatriz. Apenas mudaram a fachada — Arthur respondeu, sem desviar o olhar do tráfego. — Ricardo era o escudo. Agora que ele caiu, os verdadeiros donos do terreno estão se reposicionando. Eles não toleram amadores, e certamente não toleram que um pária social como eu dite as regras do jogo.
Ele sentia a vigilância. Não era o assédio grosseiro de Ricardo, mas algo cirúrgico, militar. Sua irmã estava em recuperação, mas o hospital, antes um refúgio, agora parecia uma gaiola de vidro. Ele precisava de um movimento que forçasse o consórcio a sair das sombras.
*
O café no centro financeiro era um santuário de mármore e silêncio. Arthur escolheu uma mesa no canto, de costas para a parede. Ele não precisou esperar muito. Marcelo, um homem com a postura rígida de quem ainda respondia a uma hierarquia de comando, sentou-se à sua frente sem ser convidado.
— O "Deus da Guerra" prefere cafés gourmet agora? — Marcelo sussurrou, o tom carregado de um veneno que só os antigos companheiros de farda conheciam. — A diretoria do consórcio adoraria saber quem realmente assinou o contrato de reconstrução. Um criminoso de guerra disfarçado de consultor corporativo é um prato cheio para a imprensa. Ou devo chamá-lo de Major?
Arthur não recuou. Ele inclinou o corpo, invadindo o espaço pessoal de Marcelo com uma calma predatória. O ar ao redor da mesa pareceu congelar.
— Você veio aqui para me chantagear, Marcelo? — Arthur sorriu, um gesto que não alcançou os olhos. — Ou veio confirmar que o seu rastro digital é tão sujo quanto o dinheiro que financia essa sua arrogância?
Arthur deslizou o smartphone pela mesa. A tela exibia metadados bancários, transferências cifradas e a conexão direta entre Marcelo e o consórcio multinacional. O rosto de Marcelo empalideceu, a máscara de superioridade desmoronando em horror contido.
— Se esse dossiê chegar aos órgãos reguladores, sua vida luxuosa termina antes do jantar — Arthur concluiu, a voz baixa e letal. Marcelo levantou-se, as mãos trêmulas, e retirou-se sem dizer uma palavra. Ele sabia que o tabuleiro havia mudado de dono.
*
De volta ao escritório, a atmosfera era de estática pura. Arthur observava os monitores. A vitória de Beatriz era um oásis, mas o cerco se fechava.
— O consórcio não vai aceitar isso — Beatriz comentou, analisando os relatórios. — Eles estão movendo capital para fora da cidade.
— Eles estão limpando a cena do crime — Arthur respondeu.
Um clique metálico interrompeu o silêncio. A porta do escritório, que deveria estar trancada, abriu-se. Um homem alto, com cicatrizes que Arthur reconheceria em qualquer lugar do mundo, parou na soleira. Não era um oficial de justiça. Era um fantasma de seu passado militar, alguém que conhecia o preço de suas cicatrizes e a extensão de seu poder.
— O consórcio finalmente decidiu enviar alguém que sabe quem você é, Arthur — o homem disse, a voz ecoando como um veredito. — E eles não vieram para negociar. Vieram para terminar a guerra que você começou.