A Aliança Inesperada
O corredor da Ala Leste do Hospital Monte-Claro não cheirava a antisséptico; exalava o odor metálico de pânico e a decomposição de um segredo bilionário. Arthur Valente caminhava com uma cadência que ignorava o caos. Ele sabia que o consórcio não enviava recados; eles enviavam coveiros.
O estalo seco de uma trava de segurança sendo desativada atrás dele foi a confirmação. Arthur não se virou. Ele se fundiu à penumbra, movendo-se com a economia de quem não desperdiça um milímetro de energia. O agressor, um vulto em trajes táticos, disparou. O silenciador sibilou, mas Arthur já não estava onde a mira apontava. Em um movimento fluido, ele avançou por dentro da guarda do oponente, travando o pulso armado contra a parede fria. O impacto fez o metal tilintar. Arthur torceu o nervo radial, forçando a arma a cair, e imobilizou o homem com uma chave de braço que era, acima de tudo, um reconhecimento de padrão.
Quando o capuz do assassino caiu, Arthur sentiu o peso do passado: era um ex-subordinado, um soldado que ele mesmo treinara para ser uma sombra. O consórcio não apenas queria eliminá-lo; eles estavam usando o próprio legado de Arthur para apagá-lo.
— Você perdeu a forma, sargento — Arthur murmurou, a voz cortante. O assassino encarou Arthur com olhos vidrados pelo choque. Arthur não precisava de confissões; o olhar do homem era a prova de que ele era apenas um ativo descartável, um peão enviado para morrer por uma causa que nem compreendia.
Arthur deixou o agressor inconsciente e seguiu para a diretoria. Ricardo Salles estava lá, encolhido atrás da mesa de mogno. A fachada de magnata havia evaporado, substituída pelo suor frio de um homem que percebeu, tarde demais, que o consórcio o tratava como um ativo tóxico.
— Eles me descartaram, Arthur — Salles soluçou, a gravata frouxa. — Eu tentei negociar, mas eles querem a ala leste limpa. Eles querem o que está sob o solo.
Arthur não sentiu pena. Ele jogou o dispositivo criptografado sobre a mesa, o som seco ecoando como uma sentença. — Você é o peão que eles sacrificam para proteger o rei. Se quiser sobreviver, Salles, vai me dar os códigos de acesso aos servidores deles. Não é uma negociação. É a sua única chance de não ser encontrado em um beco amanhã.
Salles entregou os dados, cego pelo desespero. Com as provas em mãos, Arthur encontrou Beatriz no escritório dela. O ar estava denso, carregado pelo som das sirenes que cercavam o hospital.
— O consórcio cavou o túmulo da cidade, Beatriz — Arthur disse, jogando os dados sobre a mesa dela. — Eles não querem o hospital. Querem as terras raras sob a Ala Leste. A polícia que está lá fora? Não vem prender você. Eles vêm destruir as evidências antes que o público entenda o que está sendo roubado.
Beatriz hesitou, mas a determinação fria de Arthur era mais tangível do que o medo. Eles decidiram o movimento final: não esconder as provas, mas expô-las. Enquanto a polícia invadia o saguão, Arthur, através do sistema central que Salles acabara de entregar, vazou os registros da fraude para todos os grandes veículos de mídia do país. O saguão do hospital tornou-se uma arena sob o brilho dos holofotes. Ricardo Salles, arrastado para fora da diretoria, viu seu império de fachada desmoronar enquanto as câmeras registravam sua queda. O consórcio, vendo o escândalo ganhar proporções nacionais, sacrificou Salles instantaneamente, retirando qualquer suporte legal.
Arthur observava das sombras da galeria, sabendo que a vitória de hoje era apenas o prólogo. O consórcio não recuaria; eles apenas mudariam o campo de batalha. Ele sentiu o celular vibrar no bolso — uma mensagem codificada de seu superior no consórcio, que agora, pela primeira vez, parecia genuinamente preocupado. O atentado falhara, mas o jogo estava apenas começando.