A Elite em Alerta
O ar no Setor 4 não era mais oxigênio; era poeira de concreto e o cheiro acre de ozônio, o hálito metálico de uma estrutura morrendo. Kaelen sentiu o feedback do sistema vibrar contra seus ossos — uma pulsação âmbar, errática, que não vinha da rede oficial da Academia, mas de dentro de sua própria corrente sanguínea. Ele era um Administrador de Erros, e o Setor 4 era um mapa de vulnerabilidades prestes a ser apagado.
— Ele está na interseção do duto de ventilação — a voz do Limpador cortou o silêncio, fria e desprovida de humanidade. Eles não eram estudantes; eram executores da Academia, vestindo o cinza-chumbo dos departamentos de expurgo.
Kaelen não hesitou. Ele não tinha mais o luxo de recuar. Seus olhos, agora capazes de enxergar além da superfície, focaram no piso à sua frente. Onde outros viam metal reforçado, Kaelen via um padrão de estresse. Ele bateu o calcanhar no ponto exato da falha estrutural. A habilidade Arquivista de Falhas ativou-se com um estalo seco, como vidro sendo cortado. O piso cedeu, enviando os caçadores para o vazio do subnível enquanto Kaelen saltava para a Rota Oculta. O cronômetro âmbar em sua visão acelerou: ele tinha menos tempo do que imaginava para chegar aos níveis inferiores.
Ao chutar a porta de seu cortiço, Kaelen encontrou o terror. Três cobradores da Guilda do Ferro cercavam seus pais, as adagas de energia crepitando perigosamente.
— A cota de sobrevivência venceu. O Sistema não perdoa lixo — rosnou o líder.
Kaelen não perdeu tempo com palavras. Seus dedos formaram um comando rápido no ar, invisível aos olhos alheios. Erro: Débito de Vida. Ação: Anular.
O sistema tremeu. Uma notificação escarlate bloqueou a visão dos cobradores. As armas falharam, drenando a energia para o vazio. O líder recuou, os olhos arregalados ao ver o status de Kaelen oscilar em um código proibido. Kaelen avançou, a aura de opressão forçando o homem de joelhos. Com um gesto displicente, ele forçou a notificação de "Dívida Liquidada" na retina de cada espectador no corredor. Seus pais o encaravam, paralisados; não viam mais o filho submisso, mas um predador que agora atraía todos os olhares da vizinhança. Ele era um alvo vivo.
Nos corredores da Academia, Mestre Vane o interceptou. O mentor, antes cético, agora tinha os olhos brilhando com a interface de nível superior.
— Entregue a chave, Kaelen. O sistema que você escavou não é um brinquedo. É uma falha que a Academia precisa corrigir.
— Você me descartou como lixo, Vane. Agora quer o que resta de mim?
— A elite iniciará o colapso forçado do Setor 4 em menos de uma hora. Eles vão apagar você junto com as provas — Vane sibilou, a pressão gravitacional de sua aura forçando Kaelen contra a parede.
Kaelen sentiu o choque da revelação: a Academia não era um santuário, era um necrotério planejado. Ele precisava derrubar o sistema antes que o colapso ocorresse.
Na Praça Central, o placar de honra da Academia exibia um erro de renderização em âmbar. O nome de Kaelen ocupava o topo, rotulado como 'Ameaça de Nível Zero'. Centenas de estudantes pararam, o silêncio sendo substituído por um medo visceral. Lívia bloqueou seu caminho, a postura impecável, mas os olhos traíam a agitação de quem via sua realidade desmoronar.
— Você expôs falhas que nem deveria saber que existiam — disse ela, enquanto dois guardas da elite, com o selo de sua linhagem, posicionavam-se atrás dela.
Kaelen não respondeu. Ele hackeou o placar público em tempo real, expondo a localização exata dos Limpadores que o perseguiam. A elite agora sabia o nome dele. E eles enviaram os caçadores. O placar público mudou: Kaelen não era mais um erro, ele era um alvo.