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Chapter 2: O Prazo, o Contrato e a Febre Escondida

Rafael confronta a família durante a negociação final da venda do restaurante e descobre que o prontuário do comprador foi mutilado para esconder uma falência clínica, dando a ele a alavanca necessária para travar o negócio.

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O Prazo, o Contrato e a Febre Escondida

Às sete da manhã, a cozinha do Valença não cheirava a especiarias, mas a desespero. O ar estava pesado, saturado pelo vapor das panelas e pela tensão que emanava da mesa central. Ali, sob a luz fria dos fluorescentes, Helena e Miguel cercavam Otávio Salles. O contrato, uma pilha de folhas grampeadas, parecia uma sentença de morte disfarçada de salvação financeira.

— Oito da manhã de amanhã — repetiu Otávio, sem desviar o olhar do relógio de pulso. — Se a assinatura não estiver aqui, o investidor retira a oferta. E o desconto de liquidação será o menor dos seus problemas.

Helena, impecável em seu tailleur, mantinha a postura rígida, mas suas mãos, escondidas sob a mesa, apertavam o tecido da saia. Miguel, com a arrogância de quem ainda não sentiu o chão ceder, ria de canto.

— O Valença não é um ativo qualquer. O mercado sabe o que estamos entregando.

— O mercado sabe que vocês estão falidos — retrucou Otávio, seco. — Apenas assinem.

Rafael entrou sem ser notado. Ele não precisava de convite para observar a ruína de sua própria linhagem. Seus olhos, treinados para detectar a falha em sistemas complexos, escanearam a cena: a hesitação de Helena, o suor frio na testa de Miguel, a impaciência calculada de Otávio. Ele não viu uma negociação; viu uma entrega de chaves.

— Vender o nome da família para cobrir o rombo da má gestão? — a voz de Rafael cortou o silêncio como um bisturi. — Miguel, você nem sabe o que está assinando.

Miguel levantou-se, o rosto vermelho de fúria.

— Você não tem lugar aqui, Rafael. Sua incompetência já custou o suficiente para esta casa.

Antes que a discussão escalasse, um baque surdo ecoou pela cozinha. Adilson, o cozinheiro mais antigo, desabou entre a bancada e a cuba. O corpo, rígido, tremia em espasmos controlados. O silêncio que se seguiu foi absoluto, quebrado apenas pela respiração ruidosa do homem.

— Tira ele daqui! — ordenou Miguel, a voz falhando. — Os clientes não podem ver isso.

Rafael já estava no chão, o joelho apoiado no piso frio. Ele ignorou o primo e começou o protocolo. Pulso rápido, pele marmórea, sinais claros de toxicidade medicamentosa.

— O que ele tomou? — Rafael perguntou, a voz desprovida de emoção, focada apenas na precisão do diagnóstico.

— O que o Miguel mandou — respondeu uma das ajudantes, trêmula. — Ele estava com febre, o Miguel disse que era só repetir a dose que a Helena deixou.

Rafael sentiu o estômago revirar. Não era apenas negligência; era ignorância criminosa. Ele estendeu a mão para a pasta de documentos na mesa. Miguel tentou bloquear, mas Rafael foi mais rápido. Ele abriu a pasta, ignorando o contrato de venda, e buscou o prontuário clínico do comprador que estava sendo anexado à transação.

Seus dedos pararam. As páginas estavam ali, mas o centro do histórico — a evolução clínica dos últimos três meses — havia sido removido. As bordas do papel estavam limpas, cortadas com precisão cirúrgica. Alguém havia apagado a prova de que o comprador estava em colapso clínico, tornando a venda um golpe de má-fé.

— O comprador não está comprando um restaurante — disse Rafael, levantando-se com o documento na mão. — Ele está comprando um processo judicial. E vocês, ao esconderem isso, estão assinando a própria prisão.

O silêncio na cozinha tornou-se insuportável. Otávio Salles aproximou-se, os olhos fixos na lacuna do prontuário. A máscara de Helena finalmente caiu; o pânico, antes contido, agora era visível em seus olhos.

— Isso é uma mentira — tentou Miguel, mas sua voz não tinha mais autoridade.

Rafael guardou o documento contra o peito. Ele não precisava gritar. Ele detinha a chave que travava a venda e, consequentemente, o destino da família. A humilhação que ele sofrera no dia anterior agora se transformava em uma alavanca de poder.

— Amanhã, às oito — disse Rafael, olhando diretamente para Helena. — Veremos quem realmente controla o que acontece nesta casa.

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