Chapter 8
O ar na UTI do Hospital Viana não cheirava a cura; cheirava a falência. O zumbido dos monitores era o único som que impedia o silêncio de se tornar absoluto. Dr. Arantes, o cirurgião-chefe que até horas atrás ditava o destino da família, agora parecia um homem desmembrado. Suas mãos tremiam sobre a pasta de couro, os nós dos dedos brancos como o mármore do saguão.
Lucas não disse nada. Ele apenas observava o relógio de pulso — um objeto barato que, em sua mão, parecia um instrumento de precisão cirúrgica. Ele não precisava gritar. O tablet em sua mão, contendo os logs de dosagem de anticoagulantes, era a única voz que importava.
— Você não pode fazer isso — Arantes sussurrou, a voz rouca. — Trinta anos de carreira. Você vai destruir uma instituição por causa de uma vingança de estagiário?
— A instituição é o que você faz dela, Arantes — Lucas respondeu, a voz fria, sem qualquer traço de hesitação. — Você não errou por acidente. Você negligenciou a dosagem para acelerar a cirurgia e garantir que o contrato de fusão fosse assinado enquanto o Patriarca estava incapacitado. Isso não é um erro médico. É fraude corporativa. Se eu enviar este log para a corregedoria agora, sua licença será o menor dos seus problemas. Você será o rosto da falência do Grupo Viana.
Arantes recuou, o rosto cinzento. Ele entendeu o peso da sentença. Lucas não era mais o parente descartável; ele era o único homem que impedia o hospital de ser lacrado pela polícia. O cirurgião-chefe baixou a cabeça, derrotado, e retirou-se, deixando o caminho livre. A hierarquia havia sido invertida.
Longe dali, na ala VIP, Beatriz esperava. Ela não era mais a herdeira distante; seus olhos buscavam em Lucas uma resposta que ela temia ouvir.
— Você expôs o Arantes, mas a diretoria não vai perdoar — ela disse, a voz baixa. — Eles têm ligações que você sequer consegue imaginar. Eles temem que o próximo prontuário a ser aberto seja o deles.
Lucas parou, ajustando o relógio. O movimento era deliberado, uma demonstração de controle absoluto.
— A diretoria não está preocupada com o Arantes, Beatriz. Eles temem o que eu sei sobre a falha de segurança que quase matou seu pai. Não foi um erro médico. Foi sabotagem deliberada para forçar a fusão.
Beatriz empalideceu. A máscara de frieza cedeu.
— Eu sei quem orquestrou isso — ela admitiu, num sussurro quase inaudível. — Mas se eu revelar o nome, a holding desmorona antes mesmo de eu assumir o controle.
— Então deixe desmoronar — retrucou Lucas. — Eu já antecipei cada movimento deles. Preparei uma armadilha legal que não apenas expõe a traição, mas garante que a holding seja reestruturada sob os meus termos. O tempo de jogar pelas regras deles acabou.
Eles entraram no quarto de Roberto. O Patriarca abriu os olhos, a visão turva pelo sedativo. Ao focar em Lucas, tentou levantar a mão, mas o peso dos cateteres o ancorou.
— Saia daqui, Lucas. Chame o Arantes. Tenho uma fusão para assinar — Roberto ordenou, com um resto de autoridade que soava patética naquele cenário de dependência.
Lucas inclinou-se, a sombra cobrindo o rosto do Patriarca.
— O Dr. Arantes não está disponível, tio Roberto. Ele está ocupado demais tentando esconder a negligência que quase encerrou sua vida. Você não está mais no comando da sua holding. Você está no comando da sua recuperação. E, a partir de hoje, a sua sobrevivência depende inteiramente da minha obediência.