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Chapter 9: O Preço da Arrogância

Arthur formaliza a destituição de Ricardo perante o conselho, que assina sem resistência. Em ligação supervisionada, Ricardo tenta barganhar delação em troca de liberdade, mas Arthur corta o contato permanentemente. Beatriz entrega relatório sobre compra hostil de 12,9% das ações por um fundo ligado a 'O Colecionador' e negocia cargo formal como aliada. O capítulo termina com Arthur recebendo foto de vigilância e mensagem anônima que confirma a existência de uma ameaça maior.

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O Preço da Arrogância

Arthur entrou na sala de reuniões às 8h12. O ar condicionado zumbia, mas o cheiro de café frio e suor velho ainda pairava. Os seis diretores já estavam sentados, telas abertas nas manchetes que se repetiam em três jornais: “Ricardo Valente preso por desvio milionário”Folha. “Garantias fantasmas derrubam império familiar”Valor. “Herdeiro marginalizado assume comando após colapso do primo”Estadão.

Ele caminhou até a cabeceira sem pressa. A cadeira de couro de Ricardo ainda guardava o vinco do corpo que a ocupara por uma década. Arthur permaneceu de pé.

— Bom dia.

Silêncio. Conselheiro Mendes pigarreou uma vez.

— Ações caíram 5,1% no pré-mercado — disse Mendes, voz cortante. — A CVM exige nota antes das nove. Precisamos de uma versão conjunta.

Arthur inclinou a cabeça meio grau.

— A versão é curta: a holding está limpa. O problema foi algemado e levado.

Um murmúrio breve morreu antes de nascer.

Ele tirou do bolso interno do paletó uma pasta fina de couro preto, sem logotipo. Colocou-a na mesa com um toque seco.

— Destituição formal de Ricardo Valente. Assinada por mim às 23h47 ontem. A cláusula de auditoria foi acionada há 72 horas. Vocês receberam o relatório na sexta. Assinem.

Mendes abriu a boca, fechou. Olhou para os lados. Ninguém devolveu o olhar.

— Ou — continuou Arthur, voz baixa e nivelada — expliquem na assembleia geral por que mantiveram um fraudador no comando enquanto as garantias evaporavam e as linhas de crédito eram sustentadas por mim.

O primeiro diretor pegou a caneta. Assinou rápido. O segundo seguiu. Quando a pasta chegou a Mendes, o conselheiro segurou a caneta por oito segundos. O traço saiu torto, quase rasgando o papel.

Arthur recolheu os documentos, fechou a pasta com um estalo.

— Reunião encerrada.

Eles saíram em fila, sem despedidas, sem olhar para trás. A porta fechou com precisão hidráulica.

Arthur caminhou até a varanda envidraçada. O vento quente da Paulista subia em rajadas. O celular vibrou sobre a mesa de ébano. Número bloqueado. Atendeu.

— Arthur.

A voz de Ricardo saiu arranhada, supervisionada.

— Fala.

— Parabéns. Sempre soube e ficou calado. Elegante.

Arthur encostou o antebraço no parapeito frio.

— Cinco minutos. Use bem.

— Tem gente maior nisso. Me procuraram há dois anos. A holding sangrava. Você sumido. Precisei escolher.

— Escolheu mal.

Um riso curto, sem ar.

— Eles têm codinome. “O Colecionador”. Compram dívidas, peças raras, empresas em distress. Me pressionaram para usar o jade como garantia final. Não tive saída.

— Sempre teve saída — disse Arthur. — Escolheu a mais fácil.

— Me tira daqui. Eu delato. Nomes, contas, datas. Entrego tudo.

Silêncio.

— Você já entregou o que tinha de valor — respondeu Arthur. — Inclusive a mim.

— Arthur, por favor…

— Adeus.

Desligou. Discou para a segurança.

— Bloqueio permanente daquele ramal. Qualquer tentativa futura vai direto para o delegado.

Guardou o aparelho.

A porta lateral abriu. Beatriz entrou sem bater. Tailleur cinza-escuro, pasta preta na mão.

— Chegou cedo — disse Arthur, sem se virar.

— Você ignora mensagens antes das sete. Vim pessoalmente.

Ela abriu a pasta sobre a mesa baixa. Retirou uma folha: extrato consolidado, trechos sublinhados em vermelho.

— 12,9% das ordinárias compradas nas últimas 72 horas. Lotes fracionados em sete corretoras. Todos convergem para um fundo offshore nas Ilhas Cayman.

Arthur leu os números. Expressão neutra.

— Quem?

— O mercado de jade sussurra “O Colecionador”. Não aparece em pré-leilões. Só compra o que ninguém mais pode ter.

Beatriz cruzou os braços.

— Quero cargo formal. Diretora de relações estratégicas com mercado de arte e luxo. É o mínimo.

Ele devolveu a folha.

— Quer o título ou o poder que vem com ele?

— Os dois. E você precisa de quem leia o tabuleiro maior.

Arthur a encarou por seis segundos.

— Diretora de relações estratégicas. Cláusula de saída imediata por conflito de interesse ou vazamento. Aceita?

Beatriz estendeu a mão. Sorriso fino.

— Aceito.

Apertaram-se uma vez. Firme.

O sol já descia quando Arthur voltou à varanda. A cidade acendia luzes como peças que, pela primeira vez, obedeciam sua mão.

A secretária bateu de leve e entrou.

— Senhor Valente. Chegou isto há dez minutos. Mensageiro particular. Sem remetente.

Entregou um envelope preto, papel grosso, selado com cera sem timbre.

Arthur passou o polegar pela borda. Abriu. Uma foto 10×15: ele no leilão de jade, placa erguida, rosto iluminado pelo refletor. Nítida demais.

Virou. Letra firme, tinta preta:

“Parabéns pelo tabuleiro. Agora falta o dono da sala.”

Ele apertou a foto. Olhou o horizonte de São Paulo. As luzes piscavam como olhos que o mediam.

— Então venham.

O envelope caiu no carpete. O copo de uísque permaneceu intocado na balaustrada.

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