Ataque Hostil
O ar no 34º andar da Viana Corp estava rarefeito, não pela altitude, mas pela eletricidade estática que emanava dos terminais. Arthur Viana observava a tela principal: o gráfico das ações da empresa, antes uma linha estável, agora desenhava um precipício em tempo real. O fundo Cayman, gerido por Heitor — o homem que Arthur conhecia desde os tempos em que a ambição era apenas um jogo de xadrez em colégios de elite —, havia iniciado o bombardeio.
Beatriz Lemos entrou sem bater, o salto agulha ecoando como tiros curtos no mármore. Ela não trazia o cinismo de outrora; trazia a urgência de quem percebeu que o navio não estava afundando, mas sendo pilotado diretamente para uma colisão calculada.
— Eles dispararam a ordem de compra hostil, Arthur — disse ela, estendendo o tablet. — Estão inundando o mercado com ordens de venda falsas para derrubar o preço e forçar a execução da dívida sobre a orla. Se o valor cair mais cinco por cento, o contrato de governança que Ricardo assinou permite que eles tomem o controle operacional. Eles querem a orla por uma fração do valor real.
Arthur não se virou. O reflexo da Avenida Paulista no vidro temperado parecia uma teia de aranha que ele mesmo havia tecido.
— Heitor sempre foi previsível — Arthur respondeu, a voz desprovida de qualquer afetação. — Ele acha que estou lutando para salvar a empresa. Ele ainda acredita que o meu capital é o que está no balanço patrimonial da Viana Corp.
— O mercado não sabe disso, Arthur. Eles estão em pânico. Os acionistas minoritários estão vendendo tudo. Se não reagirmos agora, a Viana Corp será liquidada antes do fechamento do pregão.
Arthur caminhou até a mesa de reuniões. O lugar onde, semanas atrás, ele fora tratado como um peso morto, agora era o seu centro de comando. Ele tocou a superfície fria do vidro, sentindo a vibração do mercado através dos dados que Beatriz projetava na parede.
— Deixe que eles comprem — Arthur ordenou, os olhos fixos no fluxo de ordens. — Deixe que Heitor injete cada centavo que ele tem nessa aquisição. Ele não está comprando ações; ele está comprando a dívida que eu mesmo emiti contra o fundo dele.
Beatriz parou, o tablet suspenso no ar. A compreensão brilhou em seus olhos, uma mistura de choque e respeito profissional.
— Você estruturou o fundo Cayman como uma subsidiária da holding que você controla? — ela perguntou, a voz quase um sussurro.
— Eu não apenas a estruturei. Eu a financiei. Cada dólar que Heitor usa para tentar me destruir é um aporte direto nas minhas reservas. Ele está financiando a própria falência.
O pânico no mercado atingiu o ápice. O terminal de operações emitia um zumbido constante, um alerta de volatilidade que faria qualquer outro executivo suar frio. Arthur, contudo, permanecia imóvel. Ele viu o momento em que Heitor, acreditando ter vencido, dobrou a aposta, injetando cinquenta milhões na oferta de compra.
— Agora — Arthur disse, com a precisão de um cirurgião.
Com um único comando, ele executou a cláusula de conversão de dívida que mantinha oculta nos arquivos da auditoria. O efeito foi instantâneo. O fluxo de compra do fundo Cayman travou. As ações da Viana Corp, que despencavam, estancaram e começaram a subir com uma força violenta. O fundo de Heitor, agora exposto e sem liquidez, viu suas posições serem liquidadas à força pelo próprio sistema que ele tentara manipular.
O silêncio na sala de reuniões era absoluto. Beatriz observava o gráfico: a linha vermelha de queda havia sido substituída por uma ascensão vertical. O fundo Cayman, antes o predador, era agora o ativo a ser devorado.
— O mercado está reagindo — Beatriz disse, sua voz recuperando a frieza profissional. — Eles estão percebendo que a Viana Corp não está insolvente. Eles estão percebendo que você é o credor de quem os atacou.
Arthur olhou para a costa, onde o projeto da orla brilhava sob o sol. A batalha de lances havia abalado a bolsa, mas o resultado era inegável. Ele não apenas havia defendido a empresa; ele havia reescrito a hierarquia de poder. Heitor, do outro lado da linha, agora enfrentava o colapso total de seu fundo.
Arthur virou-se para Beatriz.
— Prepare a notificação de execução. Heitor não terá como cobrir a margem. Amanhã, a Viana Corp não apenas será dona da orla. Será dona de tudo o que Heitor construiu.