Vidro e Concreto
O escritório de Beatriz Lemos, no vigésimo andar, oferecia uma vista panorâmica da orla que a Viana Corp estava prestes a perder. O vidro temperado, impecável e frio, refletia a silhueta de Arthur Viana. Ele não olhava para o mar; observava o reflexo de Beatriz, que mantinha uma postura de estátua, as mãos cruzadas sobre uma pasta de couro legítimo.
— O fundo das Ilhas Cayman não é um investidor, Arthur. É um liquidante — disse ela, deslizando o dossiê sobre a mesa de mogno. — Eles compraram a dívida da Viana Corp por uma fração do valor nominal. Ricardo assinou cláusulas de garantia que, tecnicamente, entregam o controle da orla assim que o primeiro prazo de pagamento for descumprido.
Arthur abriu a pasta. As assinaturas de Ricardo eram o registro de um desespero que ele mal conseguia disfarçar. O patriarca não estava apenas falhando; ele estava sendo devorado por um predador que conhecia cada fraqueza da família.
— Quem está por trás do fundo? — Arthur perguntou, a voz desprovida de qualquer emoção.
Beatriz hesitou, o que, vindo dela, era um sinal de alerta. — O gestor principal é alguém do seu passado, Arthur. Alguém que você derrotou em um leilão de ativos há uma década. Ele não quer apenas o lucro da orla; ele quer a humilhação pública da linhagem Viana.
Arthur fechou a pasta. O jogo havia mudado. A diretoria era apenas o tabuleiro; agora, ele enfrentava um jogador que conhecia seu estilo.
— Prepare a auditoria da Cláusula 14-B — ordenou Arthur. — Se eles querem liquidez, vão descobrir que a única fonte de capital desta empresa sou eu.
Horas depois, na sala de reuniões, a atmosfera era de um velório corporativo. Ricardo Viana tentava manter a autoridade, mas o suor frio em sua testa era uma confissão silenciosa. Os diretores, antes leais, evitavam seu olhar, voltando-se para Arthur como se buscassem uma tábua de salvação.
— A insolvência não é mais uma possibilidade, senhores — Arthur anunciou, sua voz ecoando no silêncio da sala. — É a nossa realidade. O fundo que vocês esperavam que nos salvasse está aqui para nos desmantelar.
Um murmúrio de pânico percorreu a mesa. Arthur não precisou gritar; sua calma era a arma mais letal na sala. Ele jogou os documentos da dívida sobre a mesa, o impacto do papel contra o vidro soando como um tiro.
— Eu comprei a dívida. Cada centavo que Ricardo desviou para esconder a incompetência agora é um título que eu detenho. A partir de agora, a governança da Viana Corp responde a mim.
Ricardo levantou-se, o rosto lívido. — Você não pode fazer isso. Você é um herdeiro, não um gestor!
— Eu sou o credor, Ricardo — Arthur respondeu, levantando-se lentamente. — E credores não pedem permissão. Eles executam.
Antes que o confronto pudesse escalar, a porta da sala de reuniões se abriu. Dois homens em ternos de corte impecável entraram, seguidos por uma secretária trêmula. O líder, um homem de meia-idade com um sorriso predatório, parou à cabeceira da mesa.
— Sr. Viana — disse ele, ignorando Ricardo e focando apenas em Arthur. — Vejo que a transição de poder foi mais rápida do que o esperado. Mas o fundo não reconhece sua autoridade como credor majoritário sem uma verificação externa. Viemos buscar as chaves do projeto da orla.
Arthur sustentou o olhar do invasor. O jogo de classe havia escalado. O inimigo não era mais a família, mas a força estrangeira que agora exigia o espólio. A diretoria, paralisada, esperava pelo próximo movimento de Arthur. Ele era o único que ainda mantinha o controle, mas o peso do capital estrangeiro sobre seus ombros era uma ameaça real e imediata.