O Cerco se Fecha
O ar na sala de reuniões da Valente Holding não era de ar-condicionado, mas de asfixia. Arthur Valente permanecia imóvel na cabeceira, a postura de quem não precisava de autorização para estar ali. À sua frente, sobre o mogno, a auditoria de logística não era apenas um relatório; era um atestado de óbito corporativo para Ricardo.
“Isso é uma montagem, Arthur. Você falsificou cada linha de desvio para me tirar da jogada!” Ricardo exclamou, a voz falhando. Ele estava pálido, os dedos trêmulos tentando esconder o celular que vibrava sem parar — notificações de liquidação forçada da Apex Capital. O parceiro que o financiara agora o descartava como um ativo tóxico.
Arthur não respondeu. Deslizou um documento encadernado na direção do conselheiro mais antigo. “A questão não é o que eu fiz, Ricardo. É a Cláusula 14.B do contrato de financiamento original. Ela me confere veto absoluto sobre qualquer movimentação de caixa enquanto o lastro for meu.”
O conselho, aterrorizado pela perspectiva de perder o capital de giro, votou pelo afastamento imediato de Ricardo. O castelo de cartas desabou em silêncio.
Horas depois, no escritório privativo, Beatriz Lemos exibia o log de acessos aos servidores.
— O acesso foi feito às três da manhã — disse ela. — O IP foi mascarado, mas o usuário esqueceu de limpar o cache da estação no 14º andar. É o terminal do Marcelo, o Diretor Financeiro.
Arthur tamborilou os dedos no vidro da mesa. Marcelo, o braço direito de Ricardo, era um burocrata medroso. “Ele não agiu sozinho. A Apex Capital está pagando a conta. Eles precisam que alguém apague os rastros da lavagem de dinheiro antes que a CVM receba os documentos. Prepare a denúncia criminal. Quero que ele seja preso antes de chegar ao aeroporto.”
O ato final ocorreu no saguão da holding. O ambiente fervilhava com o zumbido de câmeras. Ricardo, isolado, tentava manter a postura, enquanto Marcelo segurava um tablet com mãos trêmulas.
— A instabilidade é temporária — Marcelo tentava dizer à imprensa, a voz falhando.
Arthur desceu a escadaria de mármore. O burburinho morreu. Ele não olhou para Ricardo. Caminhou até o terminal de controle da recepção, conectou um dispositivo e, com um toque, o telão de LED exibiu a troca de e-mails entre Marcelo e os executivos da Apex, detalhando a drenagem de capital.
O rosto de Marcelo empalideceu. Arthur parou diante de Ricardo e sussurrou:
— A armadilha foi montada há meses, Ricardo. Você nunca foi o dono desta mesa. Você era apenas o peão que eu usava para manter o jogo interessante até que o mercado estivesse pronto para a minha entrada definitiva.