O Trono Vazio
O 34º andar da Viana Holding não cheirava a vitória; cheirava a ozônio e café frio. Arthur Viana atravessou o saguão de mármore, o som de seus sapatos contra o piso polido soando como uma contagem regressiva. Os funcionários, antes treinados para ignorar sua presença, agora baixavam os olhos ou fingiam uma urgência inexistente em seus terminais. A hierarquia da empresa, antes cimentada no medo de Ricardo, havia se estilhaçado na noite anterior, quando a confissão de malversação foi projetada em telões para a elite paulistana.
Arthur empurrou as portas duplas do escritório da presidência. Ricardo estava parado diante da janela, observando o tráfego da Avenida Paulista. Ele parecia menor, as omoplatas salientes sob o corte impecável do terno, o reflexo no vidro revelando um homem que tentava, sem sucesso, sustentar o fantasma de sua autoridade.
— O conselho vota a auditoria amanhã pela manhã, Ricardo — disse Arthur, parando no centro da sala. Sua voz era desprovida de triunfo, apenas a frieza de um fato contábil.
Ricardo girou. Seus olhos, antes carregados de desprezo, buscavam agora uma saída que não existia.
— Você não passa de um oportunista. Acha que essa sua jogada de mestre apaga décadas de nome? O mercado não perdoa traidores.
Arthur não respondeu com gritos. Ele depositou uma notificação oficial de despejo sobre a mesa de jacarandá.
— O mercado já precificou sua ruína. O que resta aqui é apenas o inventário do que você perdeu.
Horas depois, na sala de reuniões, o ar-condicionado sibilava. O assento de Ricardo permanecia vazio, um monumento à sua queda. Arthur entrou, não como herdeiro, mas como o detentor das chaves do cofre. Beatriz Lemos, à sua direita, mantinha o olhar fixo no dossiê de malversação.
— O quórum está completo — Arthur declarou. — A pauta é a destituição formal e a ratificação da auditoria.
Um conselheiro, cujas fortunas pessoais estavam atadas aos investimentos de Ricardo, pigarreou, nervoso.
— Arthur, isso é drástico. Não poderíamos considerar uma saída honrosa?
Arthur deslizou uma cópia da Cláusula 14.b pela mesa, parando-a sob o olhar do homem.
— O que vocês precisam decidir não é o destino de Ricardo, mas se querem ser enterrados com ele. Beatriz, prossiga.
Com a leitura das provas, o voto foi unânime. A era do patriarca terminou com o golpe seco de um martelo. Após a saída dos conselheiros, Arthur caminhou até a cabeceira da mesa. A cadeira presidencial, que ele cobiçara por anos, parecia menor sob a luz fria do fim da tarde. Ele sentou-se, o couro rangendo sob seu peso. O vazio do poder absoluto o atingiu como um golpe físico; não havia mais ninguém para culpar, apenas decisões que pesavam toneladas.
O silêncio foi rompido pelo som seco da porta. Beatriz entrou com uma expressão de urgência contida. Ela caminhou até a mesa e depositou um envelope pardo, lacrado com uma cera negra que parecia deslocada no ambiente corporativo moderno.
— O conselho está pronto para a transição, Arthur — disse ela. — Mas a queda de Ricardo foi apenas o primeiro movimento. Isso chegou por mensageiro privado.
Arthur encarou o envelope. O selo, anônimo e arcaico, pertencia ao conselho sombrio que ele jurara destruir. A vitória, percebeu, era apenas o campo de treinamento para uma guerra muito maior.