A Dança dos Fantoches
O mármore do saguão do Hotel Unique, habitualmente um palco de poder, parecia ter se transformado em um corredor de execução sob os pés de Ricardo Viana. Ele não estava acostumado a esperar, mas ali estava: o patriarca, cujos passos outrora ditavam o ritmo das diretorias de São Paulo, agora via-se reduzido a um espectador de sua própria ruína. A discrição glacial dos seguranças de Arthur, posicionados como sentinelas de um novo regime, confirmava a inversão de papéis.
Quando Arthur surgiu, vindo da área de convenções com a postura de quem já havia lido o final do livro, Ricardo não esperou pela etiqueta. Ele avançou, o rosto marcado por uma palidez que a maquiagem cara não conseguia esconder.
— Você cortou o acesso à conta central, Arthur. É uma brincadeira de mau gosto que vai custar o seu nome na família — Ricardo sibilou, a voz contida para não atrair os jornalistas que faziam o check-in no balcão ao lado. — Restabeleça os privilégios administrativos agora. Tenho pagamentos a honrar e fornecedores que não aceitam desculpas.
Arthur parou a poucos metros, ajustando o punho da camisa com uma calma cirúrgica. Não havia raiva em seus olhos, apenas a precisão de quem já havia removido o tumor.
— Pagamentos? — Arthur repetiu, o tom de voz baixo, um sussurro de cumplicidade letal. — Ricardo, você não tem mais fornecedores. Você tem credores. A Cláusula 14.b não foi escrita para proteger a família; foi escrita para garantir que, no dia em que você tentasse afundar o navio, eu tivesse a autoridade legal para trancar a porta da casa de máquinas. Você está fora. A pergunta não é como você volta, mas o quanto você quer evitar que a cidade saiba o que eu já sei.
Arthur deixou o patriarca parado no saguão. O destino de Ricardo estava selado, mas a execução pública exigia uma última peça.
Nos bastidores, o ar cheirava a café forte e tensão estagnada. Beatriz Lemos caminhava em círculos, as mãos firmes escondendo o tremor que Arthur sabia existir. Sobre a mesa de mogno, a pasta com o selo da auditoria parecia um dispositivo explosivo.
— Você tem noção do que isso significa? — Beatriz parou, fixando o olhar nele. — Destruir o legado dos Viana não é apenas vingança. É suicídio corporativo. O mercado não perdoa a queda de um titã sem levar a holding inteira para o fundo.
Arthur observava o reflexo do próprio rosto no vidro escuro da janela, onde o brilho do salão principal filtrava-se como uma promessa de caos.
— O mercado não perdoa a falência técnica, Beatriz. O que estamos fazendo é cirurgia. Ricardo transformou a holding em uma casca vazia. Eu apenas estou entregando o atestado de óbito. A sua sobrevivência profissional depende de quem ficará de pé quando a poeira baixar. Se você entregar essa pasta agora, a auditoria será minha, e a sua carreira será protegida pela nova gestão. Se não, você desce com ele.
Beatriz suspirou, um som curto e cortante. Ela sabia que ele estava certo. Sem dizer uma palavra, ela empurrou a pasta sobre a madeira polida. Era a prova documental definitiva da malversação. O destino de Ricardo estava selado.
O brilho dos lustres de cristal no salão de baile parecia perfurar a pele de Ricardo Viana. Ele estava cercado pela elite paulistana — os mesmos rostos que, meses atrás, disputavam a honra de financiar seus projetos, mas que agora mantinham uma distância calculada, como se a falência da Viana Holding fosse uma doença contagiosa. Arthur Viana observava tudo do centro do palco, ajustando o microfone com uma calma absoluta.
— Senhoras e senhores — a voz de Arthur ecoou, precisa e destituída de qualquer hesitação. — Agradeço a presença de todos nesta noite que, originalmente, deveria ser uma homenagem ao legado da nossa família.
Um murmúrio cortante percorreu as mesas. Ricardo, na mesa principal, tentou levantar-se, o rosto tingido por uma fúria impotente. Ele tentou sinalizar para os seguranças, mas eles permaneceram imóveis. Arthur acionou o controle remoto. Atrás dele, os telões gigantes ganharam vida, exibindo fluxos de caixa desviados e assinaturas forjadas sob a rubrica do patriarca.
— A verdade é um ativo volátil — Arthur continuou, olhando diretamente para os olhos vidrados de Ricardo. — E, como qualquer ativo que não é gerido com honestidade, ela acaba por cobrar o seu preço. Hoje, não vamos falar de lucros. Vamos falar de dívidas morais.