A Queda dos Aliados
O ar no clube privativo de São Paulo era denso, carregado com o cheiro de charutos envelhecidos e o silêncio cortante de quem percebeu, tarde demais, que estava no lado errado da mesa. Arthur Viana observava o Conselheiro Mendes. O homem, que semanas atrás ditava o ritmo das expulsões na diretoria, agora tentava manter a postura enquanto suas mãos, escondidas sob o mogno, tremiam com uma cadência quase imperceptível.
— O jogo de lealdades mudou, Mendes — disse Arthur. Sua voz não era um grito, mas uma sentença. Ele não precisava de ameaças; possuía o controle total da dívida pessoal que mantinha a mansão de Mendes em Alphaville e o fundo de capital de risco que sustentava a vida de luxo de seus filhos no exterior.
— Ricardo me prometeu estabilidade, Arthur. Ele é o patriarca — Mendes gaguejou, os olhos buscando a porta como se o patriarca pudesse surgir para salvá-lo.
Arthur deslizou uma pasta de couro sobre a mesa. Dentro, não havia bravatas, mas o rastro de auditoria da Viana Investimentos. Cada linha era uma prova de malversação. — Ricardo é um espectro, Mendes. Ele vive de uma solvência que não existe mais. Você pode ser enterrado com ele ou assinar sua renúncia agora. A escolha é puramente matemática.
O som da caneta no papel, segundos depois, soou como o fechamento de um caixão. Mendes saiu sem olhar para trás.
Horas depois, no trigésimo andar da Viana Holding, a eficiência era estéril. Beatriz Lemos não levantou os olhos da tela quando Arthur entrou. Sua mão, firme, parou sobre o mouse.
— A auditoria está completa — disse ela, a voz desprovida de qualquer emoção. — Se você queria provas de que Ricardo drenou o caixa para cobrir os rombos das subsidiárias, aqui estão. Mas saiba que, ao usar isso, você não destrói apenas um homem. Você implode a estrutura que sustenta o seu próprio nome.
Arthur colocou um tablet sobre a mesa de mogno. A tela exibia a contabilidade negra que transformava o patriarca em um criminoso de colarinho branco. — O nome não me pertence, Beatriz. Eu o comprei. E a estrutura? Ela está em falência técnica há dois anos, sustentada apenas pelo meu capital. A lealdade só sobrevive onde há solvência, e a sua, eu sei, é pragmática.
Beatriz suspirou, um som curto e resignado. Ao entregar a lista final de subornos, ela selou o destino de Ricardo. A transição de poder era agora uma inevitabilidade técnica.
No quadragésimo andar, o gabinete de Ricardo Viana parecia claustrofóbico. O patriarca tamborilava os dedos sobre o mogno, os olhos fixos no telefone inerte. — Onde está o Mendes? — ele rosnou para a secretária.
— O conselheiro cancelou, senhor. Disse que tinha um compromisso inadiável com a auditoria externa — respondeu Lúcia, evitando o contato visual.
Ricardo levantou-se, a fúria pulsando em suas têmporas. Ele tentou acessar o sistema central da holding, mas o terminal de dados piscava com uma indiferença cruel. Ao sair de sua sala, encontrou Arthur parado no corredor. Os outros conselheiros, que antes corriam para abrir as portas para Ricardo, agora desviavam o olhar, apressando o passo para evitar qualquer associação com o homem que perdera a coroa.
— O conselho não deve lealdade a você, Ricardo — Arthur disse, baixo o suficiente para que apenas o patriarca ouvisse a sentença. — Eles devem a própria sobrevivência ao fluxo de capital que você drenou. Amanhã, quando a auditoria for votada, eles não vão escolher um nome. Eles vão escolher o novo dono.
Ricardo, trêmulo, voltou ao seu terminal pessoal. Ele tentou acessar as contas da holding, mas a tela exibia apenas uma mensagem: 'Acesso negado. Propriedade de Arthur Viana.'