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Chapter 2: A Cláusula do Esquecimento

Arthur Viana interrompe sua expulsão da Viana Holding ao invocar a Cláusula 14.b, revelando que sua empresa privada é a credora majoritária da holding. A votação é paralisada, deixando Ricardo em choque e Beatriz Lemos ciente de que a hierarquia de poder foi invertida.

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A Cláusula do Esquecimento

O silêncio na sala de reuniões da Viana Holding tinha a densidade do chumbo. Ricardo Viana, o patriarca que transformara a empresa em uma extensão de sua própria vontade, permanecia de pé na cabeceira da mesa de mogno. Seus dedos, adornados por um anel de sinete que pesava mais do que a ética de muitos ali presentes, tamborilavam um ritmo impaciente contra a madeira polida.

— A votação está encerrada — declarou Ricardo, a voz destilando o desdém que reservava apenas para o filho. — Arthur, sua presença aqui é um insulto à memória desta diretoria. Retire-se antes que eu ordene que a segurança o remova como o peso morto que você sempre foi.

Arthur Viana não se moveu. Ele não exibiu a raiva que Ricardo esperava, nem a submissão que o conselho presumia. Com uma lentidão deliberada, ele empurrou um documento de couro sintético pelo centro da mesa. O som do papel deslizando contra o mogno foi o único ruído na sala, um estalo seco que soou como um tiro.

— O senhor esqueceu de ler as entrelinhas, pai — disse Arthur, sua voz calma, desprovida de qualquer tremor. — A Cláusula 14.b do nosso estatuto social. Aquela que o senhor redigiu há uma década, quando a liquidez era apenas um sonho distante.

Ricardo soltou uma risada curta, desdenhosa. — O advogado, descarte essa bobagem. Vote a expulsão. Agora.

O advogado da família, um homem cujas têmporas brilhavam de suor, hesitou. Ele pegou o documento, seus olhos percorrendo as linhas com uma urgência que traía seu medo. À medida que lia, a cor de seu rosto esvaía-se, substituída por um cinza cadavérico. Ele trocou um olhar rápido com Beatriz Lemos. A executiva, conhecida por sua lealdade cega aos números, inclinou-se sobre o papel. Seus dedos apertaram a caneta com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos.

— Sr. Viana — o advogado começou, a voz falhando — a cláusula é legítima. Está registrada na ata de constituição. Ela exige, explicitamente, a presença e o aval do credor majoritário para qualquer alteração na estrutura de capital ou expulsão de acionistas com direito a voto. E o beneficiário final desta dívida... é a Viana Investimentos.

Beatriz Lemos levantou o olhar, o ceticismo pragmático dando lugar a uma percepção gelada. Ela olhou para Arthur, depois para a assinatura no rodapé. — A Viana Investimentos não é uma entidade externa, Ricardo. É a holding privada do Arthur. Se ele não assinar, a votação é nula. A empresa está travada.

Ricardo contornou a mesa, seus passos pesados ecoando como um trovão contido. Ele parou a centímetros de Arthur, tentando intimidá-lo com a estatura de quem sempre ditou as regras. — Você acha que um parágrafo obscuro, uma nota de rodapé que ninguém leu em trinta anos, pode anular a vontade deste conselho? Você é um erro estatístico. Uma falha que eu vou corrigir.

Arthur permaneceu imóvel, o olhar fixo no pai. — Não é uma sugestão, pai. É o mecanismo de sobrevivência que o senhor assinou quando precisou de capital para salvar a holding no último trimestre. O senhor não está expulsando um herdeiro. Está tentando demitir o único homem que mantém as luzes acesas neste escritório.

O silêncio na sala tornou-se absoluto. Ricardo encarou o contrato, as mãos tremendo. Ele tentou ler as letras miúdas, mas o pânico turvou sua visão. — Isso é impossível — murmurou, a voz falhando. — Você não tem esse capital. De onde tirou essa alavancagem?

Arthur apenas sorriu, um gesto sem calor. Enquanto Ricardo entrava em colapso diante da extensão de sua dependência, um homem de terno impecável entrou na sala, ignorando os seguranças, e caminhou até Ricardo. Ele sussurrou algo ao ouvido do patriarca, algo que fez o rosto de Ricardo perder o que restava de sangue. O investidor que ele buscava para salvar a holding não era um aliado; era o seu próprio filho.

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