A Mesa é Minha
O 32º andar da sede da Valente S.A. não era apenas um escritório; era um altar de mármore e vidro onde a linhagem de Ricardo Valente fora sacrificada no altar da própria ganância. Arthur Valente caminhou pelo corredor, o som de seus sapatos de couro italiano contra o piso polido soando como uma contagem regressiva. Não havia mais secretárias nervosas ou conselheiros sussurrando nos cantos. O silêncio era absoluto, uma membrana esticada até o ponto de ruptura.
Ele parou diante da porta dupla de jacarandá. Beatriz Lemos estava lá, segurando um tablet com a frieza de quem já havia enterrado o passado.
— O Consórcio Guedes-Oliveira entrou em colapso técnico às 06h00 — disse ela, sem preâmbulos. — Eles tentaram cobrir o rombo do leilão de jade com ativos que você já havia desvalorizado. Estão tecnicamente insolventes. Ricardo tentou acessar a offshore operacional durante a madrugada. Bloqueei a tentativa. O saldo é zero.
Arthur assentiu, um movimento mínimo. Ele empurrou a porta. A sala de reuniões, outrora o centro nervoso de um império, parecia agora um cenário de teatro vazio. A cadeira de Ricardo, o trono de couro que definira a infância de Arthur como um objeto de desejo inalcançável, estava vazia.
Ele não se sentou de imediato. Caminhou até a vidraça, observando São Paulo. A cidade, com suas luzes ainda lutando contra o amanhecer, era apenas um tabuleiro. A fusão com a GlobalTech Alliance não era apenas um negócio; era a âncora que ele usaria para arrastar o que restava da Valente S.A. para uma nova era, sob sua única e absoluta vontade.
A porta se abriu com um estrondo. Ricardo entrou, a aparência impecável de outrora substituída por uma desordem patética. Seus olhos, injetados, buscavam um inimigo que ele pudesse enfrentar, mas encontrou apenas o vazio de sua própria irrelevância.
— Você não pode fazer isso, Arthur — a voz de Ricardo era um fio de esperança esgarçado. — Eu sou o seu pai. Eu construí tudo o que você está destruindo.
Arthur virou-se lentamente. Não havia ódio em seu rosto, apenas a precisão de um cirurgião diante de um tumor. Ele deslizou o extrato bancário sobre a mesa de mogno. O papel, com seus zeros implacáveis, parecia pesar toneladas.
— Você não construiu um império, Ricardo. Você construiu uma fachada de papel sobre uma fundação de dívidas que eu financiei. A diferença entre nós é que eu sempre soube o custo de cada tijolo. Você apenas se apaixonou pela sombra que eles projetavam.
Ricardo olhou para o documento. O choque foi físico; seus ombros caíram, e a arrogância que o sustentara por décadas evaporou, deixando apenas um homem velho e quebrado. Ele tentou falar, mas não havia mais argumentos. A auditoria era o veredito final.
— Os seguranças estão lá fora — disse Arthur, sua voz cortante como vidro. — Eles não estão aqui para me proteger de você. Estão aqui para garantir que você não leve nada que pertença à companhia. Nem mesmo a dignidade que você já perdeu.
Ricardo não protestou. Ele saiu, arrastando os pés, um espectro sendo removido de uma casa que nunca lhe pertencera de fato.
Arthur finalmente contornou a mesa e sentou-se. O couro cedeu sob seu peso, ajustando-se à nova ordem. Ele olhou para o horizonte. A Valente S.A. era apenas a primeira peça. O Consórcio estava neutralizado, a família estava sob sua tutela financeira, e a GlobalTech era o próximo passo em um jogo de escala global. Ele tocou a superfície da mesa, sentindo a solidez do poder real. O jogo de xadrez da vida paulistana acabara de recomeçar, e desta vez, ele detinha todas as peças.