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Chapter 3: A Impossibilidade da Distância

Leo desiste de entregar o livro-caixa à polícia ao perceber que isso condenaria as famílias protegidas pelo avô. Ao retornar ao bairro, ele confronta a imobiliária para proteger o Sr. Chen, assumindo publicamente o papel de guardião do legado, enquanto Mei observa seus movimentos com desconfiança calculada.

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A Impossibilidade da Distância

O ar na delegacia do 5º Distrito tinha o gosto metálico de café requentado e o peso de vidas sendo desmanteladas. Leo apertou a mochila contra o peito, sentindo o livro-caixa de couro surrado — o peso morto que agora definia seu destino — pressionar suas costelas. Ele estava a poucos metros do escrivão quando o som de um choro abafado o fez parar. Em uma sala de vidro fosco, uma família — pai, mãe e uma menina pequena — estava sob a luz crua de um interrogatório. O pai, com mãos calejadas, tremia diante de um policial cujo distintivo brilhava com a mesma frieza das novas construtoras que devoravam o bairro.

— Vocês não têm registro, não têm proteção legal — a voz do policial era um veredito. — Ou assinam a saída agora, ou a remoção será feita antes do pôr do sol.

Leo sentiu um impacto no estômago. Aquelas páginas que ele carregava não eram apenas dívidas; eram os nomes, as histórias e as proteções que seu avô tecera durante décadas. Entregar aquilo à polícia não seria justiça; seria uma sentença de morte para todos que ainda resistiam. Ele recuou, o livro-caixa escondido sob a jaqueta, e saiu da delegacia antes que fosse notado, o suor frio escorrendo por suas costas. A distância que ele tanto buscava era uma ilusão de ótica.

Ao retornar para a rua principal, o ruído metálico de uma retroescavadeira preenchia o ar, um lembrete de que o tempo estava se esgotando. Mei surgiu das sombras do arco de entrada, os braços cruzados, o olhar como uma lâmina.

— Achou que poderia se livrar do seu sangue apenas entregando-o a quem não sabe ler as entrelinhas? — ela perguntou, a voz baixa e cortante. — Você não entende, Leo. Esse livro não é um registro contábil; é a chave legal que mantém o quarteirão inteiro sob proteção comunitária. Enquanto ele estiver com você, você é o guardião. Se você falhar, o bairro desaparece. Eu sacrifiquei minha vida inteira aqui para manter o que seu avô construiu. Não ouse tratar isso como um fardo descartável.

Leo tentou protestar, mas o barulho de gritos veio da loja do Sr. Chen. Ele correu, encontrando dois homens de terno cinza, representantes da imobiliária, intimidando o velho lojista. O vidro do balcão já estava rachado.

— O prazo acabou, velho — um dos homens rugia, golpeando a superfície com um anel pesado. — Sua assinatura ou o prédio desce hoje. Você é o elo mais fraco.

Leo deu um passo à frente, a voz firme, embora o coração disparasse.

— Ele não vai assinar. Eu sou o responsável pela gestão deste imóvel agora.

Os homens riram, mas o desdém desapareceu quando viram a determinação no rosto de Leo. Eles deixaram um ultimato: o Sr. Chen tinha até o amanhecer para sair, ou o prédio seria demolido com ele dentro. Quando a poeira baixou, o silêncio na loja era opressor. O Sr. Chen, em choque, olhou para Leo com uma mistura de medo e esperança.

— Eles não querem o terreno, Leo — murmurou Chen. — Eles querem o que está escrito nessas páginas. Se esse livro cair nas mãos deles, o bairro inteiro perde o direito de existir. E as pessoas cujas identidades estão aqui... elas desaparecerão.

Leo abriu o livro-caixa na primeira página, aceitando que a aliança com a comunidade era sua única saída. Enquanto ele estudava os códigos, Mei observava das sombras da entrada, seu olhar fixo nele — uma guardiã que vigiava cada passo seu, esperando pelo erro que definiria o destino de todos.

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