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Chapter 8: A Compensação Inesperada

Rafael tenta comprar a liberdade de Beatriz com uma doação massiva, mas a manobra apenas a prende mais a ele sob o olhar de Gustavo Mendes. A tensão culmina em um beijo estratégico que confunde a linha entre a farsa do casamento e um desejo crescente, deixando Mendes em xeque.

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A Compensação Inesperada

O escritório de Rafael Vasconcelos, no décimo andar da mansão, parecia ter encolhido. O ar, pesado pelo cheiro de mogno e pelo silêncio cortante, carregava o peso do diário de Mariana. O objeto, uma prova física de sacrifício e desespero, repousava sobre a mesa de ébano como uma sentença. Rafael tamborilava os dedos na madeira, um ritmo errático que denunciava a trinca em sua fachada de magnata inabalável.

— O cheque está ali — disse ele, a voz desprovida de qualquer inflexão, como se estivesse lendo um contrato de liquidação. — Cobre as dívidas do seu pai e garante o exílio necessário para que ele nunca mais precise olhar para trás. Você pode sair antes do casamento civil amanhã. Sua liberdade foi comprada.

Beatriz não olhou para o envelope. Ela mantinha as mãos cruzadas sobre o colo, sentindo a pulsação martelar em suas têmporas. Ele tentava precificar a distância entre eles, um reflexo condicionado de quem fora treinado a acreditar que toda conexão humana era, no fundo, uma transação.

— Você acha que isso resolve? — ela perguntou, a voz firme, cortando a tensão. — Você me usou como escudo, Rafael. Eu aceitei esse papel por necessidade, mas a narrativa mudou. Se eu sair agora, Gustavo Mendes usará o que sabe sobre os servidores para destruir não apenas a sua reputação, mas a minha vida. Você não está me libertando; está me empurrando para o fogo.

Rafael levantou-se, sua silhueta projetando uma sombra longa sobre o tapete persa. Antes que pudesse responder, o zumbido de seu celular rompeu o silêncio. O anúncio de uma doação de dez milhões de reais para o projeto social de Beatriz estava circulando em tempo real. Era uma manobra cirúrgica: ao vincular publicamente a imagem dela a uma causa filantrópica de prestígio, ele criava uma armadura institucional que tornaria qualquer ataque de Mendes um suicídio político.

— Você não me consultou — Beatriz disse, sentindo o peso daquela "proteção". — Isso não é um presente. É uma coleira de ouro.

— É um escudo — retrucou ele, a urgência em seus olhos traindo a fachada. — Mendes não pode tocar em você sem que a imprensa inteira entenda como um ataque à fundação. O valor é irrelevante frente à sua segurança.

A porta de carvalho abriu-se sem aviso. Gustavo Mendes entrou, os olhos fixos em Beatriz com uma satisfação predatória. Ele ignorou Rafael, focando apenas no alvo que considerava vulnerável.

— Um gesto nobre, Vasconcelos — Mendes sorriu, ajustando os punhos. — Mas a caridade não apaga o fato de que Beatriz acessou servidores que não lhe pertencem. Tenho as chaves de criptografia pendentes, e o casamento civil é uma formalidade que não me impede de vazar o conteúdo para a comissão de valores mobiliários. Ou a chave, ou o escândalo que enterrará seu império antes da lua de mel.

O ar na biblioteca tornou-se rarefeito. Faltavam menos de dez horas para o casamento civil, e o relógio de pulso de Rafael parecia uma contagem regressiva para a ruína. Beatriz percebeu que o jogo havia mudado: ela não era mais um peão, mas a chave de acesso que decidia quem detinha o poder.

— Você sacrificaria o império para me manter segura? — perguntou ela, a voz baixa, enquanto atravessavam o saguão do Clube de Elite, horas depois.

Mendes, observando-os com escárnio, bloqueava a saída.

— Tão devotados — sibilou ele. — Mas me pergunto se essa união sobreviveria a um acesso irrestrito aos servidores. Beatriz, você sabe que seu 'marido' não confia em você tanto quanto finge.

Rafael não esperou. Ele puxou Beatriz pela cintura, sentindo a rigidez dela se transformar em uma entrega estratégica. Ele a trouxe para tão perto que a respiração de ambos se confundiu. O beijo não foi uma performance de amantes; foi uma demonstração de posse absoluta, um selo de lealdade que deixou Mendes visivelmente desconcertado. Rafael a beijou com uma intensidade que queimou as defesas de Beatriz, forçando-a a questionar se, sob a necessidade, não havia algo que nenhum contrato poderia conter. Mendes recuou, mas o silêncio que ficou para trás era mais perigoso do que a chantagem: eles agora estavam ligados por um desejo que, em sua crueza, tornava a farsa do casamento perigosamente real.

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