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Chapter 8: A Escolha Difícil

Beatriz rejeita a oferta de Roberto Vale, desencadeando um boicote de fornecedores. Com a ajuda de Sr. Osvaldo, que fornece ervas raras e documentos históricos, ela transforma o casarão em um ponto de resistência comunitária, consolidando seu pertencimento ao local.

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A Escolha Difícil

O silêncio no pátio, após a partida dos últimos convidados, não carregava a paz do dever cumprido, mas a densidade de uma ameaça iminente. Beatriz ainda segurava o caderno de receitas da avó, o couro gasto sob seus dedos servindo de âncora enquanto Roberto Vale a observava com a impaciência de quem já contava os tijolos daquela casa como entulho.

— O evento foi um sucesso, Beatriz — Vale disse, sua voz desprovida de qualquer calor. Ele deslizou um envelope sobre a mesa, ignorando a xícara de chá ainda morna. — Mas nostalgia não sustenta vigas. Vinte e oito dias. É o que resta antes que a prefeitura lacre este lugar. Minha oferta continua de pé, e é o triplo do que este terreno vale. Não seja a última a cair.

Beatriz olhou para a rachadura na parede oeste, uma cicatriz que Lucca monitorava com uma precisão que agora parecia insuficiente. A oferta de Vale não era apenas dinheiro; era a tentativa de apagar a única história que ela não conseguira abandonar.

— O pedido de tombamento está na prefeitura, Sr. Vale — ela respondeu, a voz firme apesar do tremor em suas mãos. — Esta casa não é um ativo. Ela é um lugar. E não está à venda.

Ele riu, um som seco que não atingiu seus olhos, e retirou-se sem olhar para trás. O ar no pátio ficou pesado, quase estático, carregado com a promessa de represálias.

Na manhã seguinte, a realidade do boicote atingiu a cozinha. Beatriz encarava o telefone fixo, as mãos calejadas pela reforma agora imóveis sobre a bancada. O fornecedor de ervas, parceiro da família há décadas, declinara o pedido com uma desculpa vaga sobre logística.

— Ele bloqueou nossos insumos — Lucca disse, parado à porta, observando o estoque reduzido a latas pela metade. — Vale está estrangulando a operação. Se não tivermos o que servir, a prefeitura terá o argumento que precisa para a interdição definitiva. Ele não quer apenas o terreno, Beatriz; ele quer que a casa morra de fome.

Beatriz sentiu o peso do prazo de vinte e oito dias comprimir seu peito. O desespero ameaçava paralisar sua rotina, mas o ruído arrastado de chinelos no pátio trouxe um visitante inesperado. O Sr. Osvaldo, o vizinho ranzinza, surgiu carregando uma caixa de madeira bruta. Ele não disse uma palavra, apenas a colocou sobre a mesa, afastando os papéis da interdição.

— O fornecedor oficial pode ter se vendido, mas a terra ainda responde a quem a cuida — ele murmurou, a voz rouca, mas desprovida da habitual hostilidade. — Guardei estas mudas e sementes desde que sua avó era a alma deste lugar. São variedades raras, que não se encontram no mercado. Se você quer manter este lugar de pé, comece pelo que cresce nele.

Beatriz abriu a caixa: um tesouro de hortelã-pimenta, bálsamo e camomila rara. Ao tocar as ervas frescas, a desconfiança de Osvaldo pareceu se dissolver em um respeito cauteloso. Ele entregou-lhe, além das ervas, um documento amarelado: a escritura original que ligava o casarão à fundação histórica do bairro. Era a prova que faltava para o tombamento.

Com as ervas de Osvaldo, Beatriz transformou o casarão em um santuário. Ela preparou a infusão com uma precisão ritualística, servindo cada vizinho que se aglomerava no pátio. A casa, antes um projeto de reforma isolado, tornou-se um ponto de encontro. Enquanto a vizinhança bebia o chá e trocava olhares de apoio, o casarão deixou de ser uma propriedade privada para se tornar um escudo vivo.

Lucca, ao lado de Beatriz, observava a multidão com um brilho novo no olhar. Eles não precisavam mais de fornecedores externos; tinham a rede do bairro e a história daquelas paredes. Beatriz sentiu, pela primeira vez, que o pertencimento não era algo que se herdava, mas algo que se conquistava pelo trabalho e pela resistência compartilhada.

Do lado de fora, a rua estava em silêncio, mas o casarão pulsava. A casa era, agora, um símbolo de resistência, e Beatriz sabia que Vale não aceitaria a derrota pacificamente. O próximo ataque seria legal, talvez definitivo, mas ela não estava mais sozinha. O prazo de vinte e oito dias continuava correndo, mas a contagem agora tinha um novo propósito.

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