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Chapter 6: A Mão que Conserta

Beatriz e Lucca enfrentam uma tempestade que ameaça a integridade estrutural do casarão. Durante o esforço conjunto para salvar o telhado, a tensão relacional atinge um ponto crítico, revelando o medo de Lucca de que Beatriz parta. O capítulo termina com Beatriz percebendo que não deseja mais vender o imóvel, embora a realidade da obra interrompa um momento de intimidade.

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A Mão que Conserta

O céu sobre o casarão tinha a cor de metal batido, uma massa de chumbo que pressionava o telhado colonial com a promessa de um dilúvio. Beatriz estava parada no centro do pátio, sentindo o ar pesado e úmido que precedia o temporal. Suas mãos, agora calejadas e com as unhas manchadas de verniz antigo, tremiam levemente. A notificação da prefeitura, fixada com fita adesiva na porta da cozinha, parecia uma sentença de morte: o prazo de vinte e oito dias para a regularização estrutural estava encurtando, e a cada hora a casa parecia mais consciente de sua própria fragilidade.

Lucca surgiu do canto da oficina, limpando o óleo das mãos em uma estopa suja. Ele caminhou até a base da viga principal da varanda. O estalo foi imediato — um som seco, agudo, como um osso se partindo. A madeira cedeu mais alguns milímetros, fazendo a poeira do teto dançar na luz escassa da tarde.

— A fundação não vai aguentar a pressão da água se isso desabar agora — Lucca disse, a voz desprovida de rodeios. Ele apontou para a rachadura que serpenteava pelo reboco, mais larga do que na manhã anterior. — Temos vinte e oito dias, Beatriz. Mas essa chuva vai acelerar o colapso em horas.

Beatriz sentiu o peso da dívida de IPTU e das multas ambientais como uma âncora em seu peito. O dinheiro que ela deveria usar para a papelada era o mesmo que estava mantendo aquelas vigas de pé. Se parasse a obra, a prefeitura lacraria o local. Se continuasse, arriscava tudo em uma aposta contra a gravidade.

— Então vamos reforçar agora — ela respondeu, a voz firme, embora o medo lhe desse um nó na garganta.

A chuva começou como um tamborilar nervoso antes de se transformar em uma cortina de água que invadia o pátio. O local, antes um refúgio de silêncio, tornava-se um leito de lama. Cada goteira que surgia nas frestas do telhado era uma contagem regressiva para a interdição.

— Beatriz, a viga! Segura o apoio ou a estrutura cede de vez! — Lucca gritou acima do estrondo do temporal. Ele estava no andaime, o rosto marcado pela fuligem e pela chuva, os músculos dos braços tensos sob a camisa colada ao corpo.

Beatriz não respondeu. Ela cravou as mãos na madeira úmida e forçou o suporte para cima, sentindo cada fibra de seu corpo protestar contra o peso. O cheiro de terra molhada e madeira velha subia, um perfume de derrota iminente que ela se recusava a aceitar. Eles trabalhavam em uma coreografia de sobrevivência. Quando Lucca precisava de um prego ou de uma peça de vedação, Beatriz já a tinha estendido, antecipando o movimento. Não havia espaço para hesitação; a casa exigia uma competência brutal que, por um momento, os alinhou de forma quase telepática.

Quando a chuva reduziu-se a um tamborilar preguiçoso, o pátio estava mergulhado em uma penumbra alaranjada, cortada apenas pela luz trêmula das lamparinas. Beatriz deixou a marreta descansar, sentindo o latejar em seus antebraços. O silêncio não era mais o vazio opressivo de quando ela chegou, mas algo denso, carregado pela urgência do que ainda precisavam resolver.

— Você não vai embora, vai? — a voz de Lucca soou baixa, quase engolida pelo som da água nos ralos. Ele não olhou para cima, mas a tensão em seus ombros revelou o medo que ele escondia sob a praticidade.

Beatriz parou, o ar preso na garganta. Ela observou as mãos de Lucca, as mesmas mãos que seguravam a estrutura daquele casarão quando tudo parecia prestes a desabar.

— O que te faz pensar isso? — ela devolveu, a voz rouca pelo esforço.

— O trabalho está quase no fim. A estrutura vai aguentar a vistoria. E, quando o medo passar, pessoas como você costumam olhar para o relógio e lembrar que têm vidas a retomar fora daqui.

Beatriz olhou ao redor, para as paredes que ela mesma ajudara a limpar, para as marcas de seu próprio suor no piso. Ela percebeu, com uma clareza cortante, que não queria mais vender. O casarão não era mais um ativo; era o único lugar no mundo onde ela se sentia, pela primeira vez, necessária.

A eletricidade retornou com um estalo seco, fazendo a lâmpada pendente oscilar. O bipe estridente de um celular sobre a bancada cortou o momento: o portal da prefeitura confirmando o recebimento do pedido de tombamento, acompanhado do lembrete da multa ambiental prestes a vencer. Lucca estava logo à sua frente. O rosto dele, manchado de poeira, parecia mais próximo do que nunca. A respiração de ambos estava sincronizada, um ritmo de exaustão que dissolveu as fronteiras entre o trabalho e o desejo. Ele deu um passo, a mão calejada estendendo-se para afastar uma mecha de cabelo úmido do rosto de Beatriz. O toque foi deliberado, uma promessa silenciosa. Beatriz inclinou-se, o mundo exterior reduzido ao calor da pele de Lucca contra a sua. Ela queria ceder, esquecer que aquela casa era um campo de batalha burocrático, mas a realidade interveio de forma violenta. Um gemido metálico, agudo e prolongado, ecoou do teto acima deles. Uma viga, sobrecarregada pela umidade, cedeu novamente, forçando Beatriz a se afastar para salvar a estrutura antes que tudo viesse abaixo.

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