Novel

Chapter 4: Calor Humano, Poeira de Obra

Beatriz estabelece uma rotina de restauração, mas é confrontada com uma dívida oculta de IPTU e multas ambientais. O Sr. Osvaldo revela que a dívida é um emaranhado de favores passados da avó. Beatriz, pressionada pelo prazo de interdição, decide priorizar a reforma estrutural em vez de pagar a dívida, assumindo o risco de enfrentar a prefeitura enquanto busca uma forma de monetizar a casa.

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Calor Humano, Poeira de Obra

O sol das oito da manhã entrava no pátio como um bisturi, revelando a poeira que dançava sobre as lajotas coloniais quebradas. Beatriz limpava o suor da testa com as costas da mão, sentindo o peso do balde de entulho. Havia passado quatro dias desde que cancelara a reunião com o corretor, e o silêncio da casa, antes opressor, agora soava como uma promessa de trabalho bruto. O prazo de vinte e oito dias para a vistoria da prefeitura não era apenas um número; era um tique-taque surdo que ecoava a cada martelada que Lucca dava na estrutura de suporte da varanda.

— Se a gente não selar essa base, Beatriz, a próxima chuva vai levar o que sobrou da fundação — disse Lucca, sem desviar o olhar do cinzel. Ele trabalhava com uma precisão que a irritava e, ao mesmo tempo, a acalmava. Suas mãos, calejadas e firmes, pareciam entender a linguagem da madeira apodrecida melhor do que qualquer engenheiro que ela consultara.

— Eu sei, Lucca. Estou tentando organizar o fluxo. Se eu limpar a área de serviço, podemos abrir o atendimento para os vizinhos ainda esta semana. O caderno da minha avó não mente: a casa sobrevivia de favores e trocas. Preciso disso agora.

Ela arrastou uma mesa pesada de jacarandá para o centro do pátio, limpando a fuligem com um pano úmido. O gesto era mecânico, mas cada centímetro de madeira revelada trazia uma estranha sensação de posse. Não era mais o imóvel de uma falecida distante; era um organismo que ela estava reanimando. O cheiro de poeira de tijolo e chá de ervas impregnava o ar, uma mistura que Beatriz já começava a reconhecer como o perfume da sua própria teimosia.

O tilintar metálico da campainha enferrujada interrompeu a rotina. Sr. Osvaldo entrou no pátio com a autoridade de quem possuía cada lajota daquele chão. Ele não esperou convite.

— Trouxe o que você pediu — disse ele, estendendo um envelope pardo com o timbre da prefeitura. — Mas não espere que seja uma boa notícia. A fiscalização não esquece prazos, Beatriz. Eles não têm o luxo da nostalgia.

Beatriz abriu o envelope na mesa da cozinha, agora seu escritório improvisado. Seus dedos tremeram ao ler o documento. Não era apenas a notificação de interdição da fundação; havia uma nova multa ambiental por despejo irregular de entulho e uma taxa de IPTU atrasada que ela sequer sabia que existia. O valor, somado ao custo da reforma estrutural que Lucca havia orçado, formava um abismo intransponível.

— Isso é impossível — sussurrou ela, sentindo o estômago revirar. — Se eu pagar as taxas, não sobra um centavo para o cimento e o aço.

Sr. Osvaldo observou a cena, sua expressão endurecendo.

— Sua avó sempre teve um jeito de resolver isso. Ela não guardava dinheiro, guardava lealdade. Muitas dessas dívidas são resquícios de favores que ela prestou a famílias deste bairro. Se você pagar, a prefeitura se cala. Se não pagar, eles lacram o portão na próxima lua cheia.

Beatriz ficou só. A noite caía sobre o pátio, e ela revisava o caderno de receitas sob a luz vacilante de um lampião. Lucca, sentado no chão, limpava as mãos em um pano encardido, observando o dilema dela.

— A estrutura não vai esperar pela sua decisão — ele disse, com a voz baixa. — Se a infiltração não for contida agora, a prefeitura não vai apenas multar. Eles vão levar o imóvel.

Beatriz encarou o envelope. O valor da multa era quase exatamente o que ela havia reservado para os reparos emergenciais. Pagar o passado para limpar o nome da casa, ou investir no presente para manter o teto de pé? Ela folheou o caderno, encontrando uma entrada sobre o Sr. Osvaldo, datada de anos atrás, sobre um empréstimo de ervas secas que nunca foi cobrado. O bairro a observava, ela sentia. As luzes das casas vizinhas pareciam frestas de olhos curiosos, esperando para ver se ela seria a herdeira que salvaria o legado ou a estranha que o deixaria ruir.

Ela fechou o caderno com um estalo seco. A decisão estava tomada, mas o peso da escolha a deixou sem fôlego. Se ela investisse na fundação, a dívida permaneceria como uma espada sobre sua cabeça. Se pagasse a prefeitura, a casa cairia sobre si mesma. Beatriz olhou para Lucca, seus olhos brilhando com uma determinação que ela mesma não reconhecia.

— Vamos consertar a fundação — disse ela, a voz firme. — E quanto à dívida… vamos ter que encontrar um jeito de fazer essa casa render mais do que apenas chá.

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