Vozes do Subsolo
O visor do caixa eletrônico cortou a escuridão como uma lâmina. 03h12. Faltavam exatamente 11 dias, 12 horas e 40 minutos para que o desaparecimento de Beatriz virasse óbito legal e entregasse a fortuna Alencar aos algozes certos. Lucas enfiou o cartão. A tela piscou vermelho: Conta bloqueada por ordem judicial.
Ele recuou para a sombra do terminal da rodoviária, o livro-caixa queimando contra as costelas sob a jaqueta fina. O volume que ele arrancara do hospital agora era uma agenda de datas de óbitos — execuções disfarçadas de mortes naturais. Na página de ontem, o nome de Beatriz aparecia não como vítima, mas como “mercadoria entregue”. Assinatura: Dr. Arnaldo.
O celular descartável vibrou no bolso. Lucas entrou no banheiro mais sujo do terminal, trancou a porta e enfiou os fones. O cheiro de amônia e mofo subiu pelas narinas enquanto ele apertava play na nota de voz resgatada do prontuário.
A voz de Beatriz saiu rachada, sem o timbre perfeito que a família exibia em festas.
— Lucas, se você chegou até aqui, já sabe demais. Arnaldo não manda em nada. Eles têm os desvios dele de dez anos atrás, guardados em vídeo. Ele só dopou a seringa e assinou a transferência. Eu não fui sequestrada. Fui vendida. A família leiloou meu nome para cobrir o rombo que o livro-caixa prova. Queriam um fantasma limpo para um transplante de linhagem corporativa. O comprador paga em silêncio e em influência.
Lucas sentiu o estômago revirar. O hospital nunca fora esconderijo. Fora palco.
— Eles vão te oferecer o mesmo trato — continuou ela, a voz embargada por interferência. — Aceite e viva rico. Recuse e desapareça como eu. O livro-caixa é prova e sentença. Entregue para quem eu indiquei e talvez ainda reste tempo. Se não…
O áudio cortou seco. No mesmo instante, botas pesadas ecoaram no saguão externo. Segurança privada. Lucas arrancou os fones, guardou o celular e abriu a porta só o suficiente para ver dois homens de terno escuro varrendo o corredor com lanternas.
Ele saiu pela janela estreita dos fundos, caindo sobre o asfalto molhado. A jaqueta rasgou no prego enferrujado. Quando se levantou, o celular vibrou de novo. Brasão Alencar na tela. Mensagem do patriarca:
Jantar em família. Mansão. 20h em ponto. Sua presença é esperada para a liquidação dos bens.
Não era convite. Era intimação.
Lucas limpou a chuva do rosto e caminhou para a rua, o livro-caixa mais pesado que nunca. Sem dinheiro, sem aliados, com a família sabendo exatamente onde ele estava. A voz de Beatriz ainda ecoava na cabeça: vendida. Não sequestrada. Vendida pela própria gente.
A cada passo, o prazo apertava mais um parafuso. Às 20h ele entraria na cova dos leões, e o livro-caixa seria a única moeda que ainda podia comprar sua vida — ou selar sua execução.