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Chapter 3: Vozes do Subsolo

Lucas ouve a nota de voz completa de Beatriz em um banheiro sujo da rodoviária. A revelação de que ela foi vendida pela própria família — e não sequestrada — chega junto com o bloqueio total de sua conta e uma intimação disfarçada de jantar na mansão. Ele escapa por pouco da segurança privada, perdendo o último acesso financeiro e ganhando a certeza de que o Dr. Arnaldo agiu sob chantagem. O relógio jurídico continua correndo, agora com menos margem e mais inimigos internos.

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Vozes do Subsolo

O visor do caixa eletrônico cortou a escuridão como uma lâmina. 03h12. Faltavam exatamente 11 dias, 12 horas e 40 minutos para que o desaparecimento de Beatriz virasse óbito legal e entregasse a fortuna Alencar aos algozes certos. Lucas enfiou o cartão. A tela piscou vermelho: Conta bloqueada por ordem judicial.

Ele recuou para a sombra do terminal da rodoviária, o livro-caixa queimando contra as costelas sob a jaqueta fina. O volume que ele arrancara do hospital agora era uma agenda de datas de óbitos — execuções disfarçadas de mortes naturais. Na página de ontem, o nome de Beatriz aparecia não como vítima, mas como “mercadoria entregue”. Assinatura: Dr. Arnaldo.

O celular descartável vibrou no bolso. Lucas entrou no banheiro mais sujo do terminal, trancou a porta e enfiou os fones. O cheiro de amônia e mofo subiu pelas narinas enquanto ele apertava play na nota de voz resgatada do prontuário.

A voz de Beatriz saiu rachada, sem o timbre perfeito que a família exibia em festas.

— Lucas, se você chegou até aqui, já sabe demais. Arnaldo não manda em nada. Eles têm os desvios dele de dez anos atrás, guardados em vídeo. Ele só dopou a seringa e assinou a transferência. Eu não fui sequestrada. Fui vendida. A família leiloou meu nome para cobrir o rombo que o livro-caixa prova. Queriam um fantasma limpo para um transplante de linhagem corporativa. O comprador paga em silêncio e em influência.

Lucas sentiu o estômago revirar. O hospital nunca fora esconderijo. Fora palco.

— Eles vão te oferecer o mesmo trato — continuou ela, a voz embargada por interferência. — Aceite e viva rico. Recuse e desapareça como eu. O livro-caixa é prova e sentença. Entregue para quem eu indiquei e talvez ainda reste tempo. Se não…

O áudio cortou seco. No mesmo instante, botas pesadas ecoaram no saguão externo. Segurança privada. Lucas arrancou os fones, guardou o celular e abriu a porta só o suficiente para ver dois homens de terno escuro varrendo o corredor com lanternas.

Ele saiu pela janela estreita dos fundos, caindo sobre o asfalto molhado. A jaqueta rasgou no prego enferrujado. Quando se levantou, o celular vibrou de novo. Brasão Alencar na tela. Mensagem do patriarca:

Jantar em família. Mansão. 20h em ponto. Sua presença é esperada para a liquidação dos bens.

Não era convite. Era intimação.

Lucas limpou a chuva do rosto e caminhou para a rua, o livro-caixa mais pesado que nunca. Sem dinheiro, sem aliados, com a família sabendo exatamente onde ele estava. A voz de Beatriz ainda ecoava na cabeça: vendida. Não sequestrada. Vendida pela própria gente.

A cada passo, o prazo apertava mais um parafuso. Às 20h ele entraria na cova dos leões, e o livro-caixa seria a única moeda que ainda podia comprar sua vida — ou selar sua execução.

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