O Arquivo dos Mortos-Vivos
O ar no subsolo do Hospital Alencar não era apenas viciado; era saturado com a decomposição de segredos que deveriam ter sido incinerados há décadas. Lucas Alencar ajustou a máscara cirúrgica, sentindo o suor frio grudar na nuca. Ele não estava ali como um herdeiro legítimo da dinastia, mas como uma sombra, usando o nome de solteira da mãe — um patronímico que, para os corredores de mármore do andar superior, soava como um insulto à conta bancária da família.
Faltavam exatamente doze dias para que o desaparecimento de Beatriz fosse convertido em óbito legal. Doze dias até que a sucessão fosse selada e o império Alencar, com todas as suas ramificações criminosas, passasse definitivamente para as mãos daqueles que, ele suspeitava, haviam arquitetado o sumiço da prima. O relógio no visor de seu celular não era apenas uma conveniência; era uma sentença de morte que avançava em silêncio.
— O prontuário 4022-B — Lucas repetiu para a recepcionista, forçando a voz a soar com a autoridade fria de um executivo. — Pedido direto do Dr. Arnaldo. Auditoria de rotina.
A mulher, cujos óculos pareciam fundidos ao rosto, não levantou a cabeça. O som do teclado era um martelar rítmico, uma contagem regressiva para sua própria ruína. O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelo zumbido dos servidores. Quando ela finalmente parou de digitar, seu rosto empalideceu.
— Sr. Alencar, este registro não está disponível para consultas comuns. Ele possui um bloqueio de nível executivo. O senhor precisa de uma autorização assinada pelo patriarca.
— Diga a ele que o primo distante cansou de esperar — Lucas rebateu, a impaciência vencendo a cautela. Antes que ela pudesse reagir, ele contornou o balcão. A segurança era uma ilusão alimentada por crachás e burocracia; ele conhecia as falhas porque ele mesmo era um erro no sistema deles.
Ele não precisou procurar muito. Atrás de caixas de arquivos mortos, protegida por um painel de acesso que ele contornou com um dispositivo improvisado, estava a prova. Não era digital. Era um livro-caixa físico, encadernado em couro, uma relíquia anacrônica que pesava em sua mão como chumbo. Ao abri-lo, o cheiro de papel mofado subiu, mas não eram nomes de pacientes que preenchiam as páginas. Eram listas de juízes, políticos e delegados, cada nome seguido por cifras que financiavam a opulência da mansão Alencar.
— Você não deveria estar aqui, Lucas. Especialmente não fuçando onde a poeira deveria permanecer intocada.
A voz do Dr. Arnaldo surgiu das sombras, ácida e controlada. O médico bloqueava a saída, as mãos cruzadas sobre o avental branco impecável, um contraste grotesco com a sujeira que Lucas agora segurava contra o peito.
— E você não deveria estar tentando esconder o prontuário de uma paciente, doutor — Lucas retrucou, o pulso acelerado. — O Conselho de Medicina adoraria saber por que um registro de internação possui um bloqueio de nível executivo. Beatriz não estava doente. Ela estava escondida aqui sob uma identidade falsa, não estava?
Arnaldo deu um passo à frente, seu semblante perdendo a máscara de benevolência profissional. O medo em seus olhos era genuíno; ele não estava apenas protegendo a família, ele estava aterrorizado com o que Lucas segurava.
— Você é um fracasso financeiro, Lucas. Um primo distante que vive de migalhas. Acha que essa sua pequena rebeldia vai mudar algo? A família já sabe que você está aqui. O alerta já foi dado.
Lucas não esperou pela segurança. Ele empurrou o médico contra a prateleira de metal e disparou pelo corredor. O hospital, que antes parecia um labirinto de rotina, transformou-se em uma armadilha. Os elevadores estavam bloqueados. As portas de serviço, seladas.
Ele se escondeu em uma sala de expurgo, o ar denso com o cheiro de desinfetante vencido. Conectou o cabo furtado do terminal de arquivos em seu tablet. A tela tremeluziu, revelando a rede interna do hospital em tempo real. O sistema não buscava apenas um intruso; ele estava sendo reconfigurado para uma varredura de rastreamento térmico.
No topo da tela, o relógio saltou para 11 dias, 23 horas e 40 minutos. Uma notificação saltou no visor, em letras vermelhas que pareciam pulsar: Protocolo de Segurança de Nível Executivo - Autorização: Alencar, H.
O patriarca havia tomado o comando. O sistema de arquivos emitiu um sinal de alerta vermelho estridente que ecoou pelo subsolo: o acesso de Lucas fora detectado, e a caçada oficial estava aberta.