Prova de Fogo no Salão
O espelho da suíte no Hotel Unique não refletia apenas uma mulher; refletia um ativo de alto risco. Helena ajustou o colar de diamantes — um empréstimo de Arthur, frio como uma algema — e alisou a seda esmeralda de seu vestido. Não era apenas uma peça de alta costura; era uma armadura de fachada. Ela não podia se dar ao luxo de tremer. O divórcio a deixara com o sobrenome manchado e as contas bloqueadas, mas o contrato que assinara com Arthur naquela tarde no escritório de advocacia era a única âncora que a impedia de ser arrastada pela maré de escândalos de Ricardo.
Um toque seco na porta precedeu a entrada de Arthur. Ele não caminhava; ele ocupava o espaço. Seu terno impecável e a postura de quem nunca admitia derrota faziam com que a suíte parecesse pequena demais. Ele parou atrás dela, seus olhos encontrando os dela no reflexo do espelho.
— Você parece uma noiva prestes a ser sacrificada — Arthur comentou, a voz desprovida de calor. Ele se aproximou, invadindo seu espaço pessoal com uma naturalidade que a deixou em alerta. Seus dedos roçaram a pele de Helena ao ajustar o decote do vestido, um gesto de possessividade calculada que ela não teve permissão de questionar. — Lembre-se: o desespero é um perfume que todos nesta sala saberão identificar. Não o use.
Helena ergueu o queixo, enfrentando o olhar gélido dele pelo espelho. — Eu aprendi a esconder o medo muito antes de você decidir me salvar, Arthur. Não confunda minha cautela com fraqueza.
— Ótimo. Então não esqueça que, a partir de agora, o seu nome é a extensão do meu. Qualquer falha sua é uma perda de capital para nós dois. O jogo começa agora.
Ao entrarem no salão de baile, o ar mudou. O burburinho da elite paulistana cessou por um milésimo de segundo, substituído pelo som de taças sendo pousadas. Do outro lado, Ricardo Mendonça observava, sua taça de champanhe suspensa em um brinde irônico. Helena sentiu o aperto de Arthur em sua cintura tornar-se uma âncora tática. A pressão de sua mão era firme, possessiva, um lembrete constante de que, ali, eles eram um só corpo estratégico.
— Eles querem uma falha, Helena — ele murmurou, o hálito quente contra seu ouvido. — Não lhes dê esse prazer. Sorria como se o mundo fosse nosso.
O jornalista Marcelo Viana, conhecido por suas colunas de escândalos, interceptou-os quase imediatamente. O brilho predatório em seus olhos era evidente.
— Arthur, que surpresa vê-lo com a ex-senhora Ricardo Mendonça — Viana disparou, ignorando a etiqueta. — O mercado comenta que seu novo noivado é uma jogada de mestre para salvar o que restou das finanças da família dela. É um contrato ou um resgate, Arthur?
Arthur não piscou. Ele desmantelou o jornalista com um sorriso cortante. — Viana, sua coluna sempre careceu de fatos, mas hoje você superou a si mesmo. O que você chama de resgate, o mercado chama de aquisição estratégica. E se você continuar a confundir a vida privada da minha noiva com o seu folhetim barato, garanto que o próximo processo por difamação que sua redação receber será o último.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. A ameaça de Arthur não era vazia; o contrato publicitário que ele acabara de queimar para protegê-la era uma perda real, uma prova de que a proteção dele tinha um custo, e ele estava disposto a pagá-lo para manter a fachada intacta.
Mais tarde, na varanda, longe dos olhares, Helena o confrontou. — Você perdeu a conta Albuquerque por causa de um comentário. Por que ir tão longe?
Arthur se aproximou, a sombra do salão escondendo a dureza de suas feições. — A Albuquerque é apenas um ativo, Helena. O que você não entende é que Ricardo não está apenas tentando te humilhar; ele está financiando cada linha de veneno que sai naquelas colunas para garantir que o seu legado — e o segredo que sua mãe esconde — seja destruído antes que você consiga reagir.
Helena sentiu um frio na espinha. O segredo de Teresa. O peso do contrato, antes uma jaula, agora parecia um escudo necessário.
— O que você ganha com isso, Arthur? Além de me manter presa a esse papel?
Ele não respondeu com palavras. Em vez disso, puxou-a para o centro do salão, onde os olhares de Ricardo e da elite convergiam. O movimento foi possessivo, um colapso de distância que forçou Helena a se apoiar nele. O beijo que se seguiu, capturado pelos fotógrafos, foi performático, mas a intensidade da mão de Arthur em sua cintura, a forma como ele a dominou diante de todos, não parecia nada encenada. Helena percebeu, com um pavor crescente, que a linha entre a farsa e a realidade estava se tornando perigosamente tênue.
Ao retornar ao escritório de Arthur no final da noite para discutir os próximos passos, o silêncio era pesado. Enquanto ele se afastava para servir uma dose de uísque, Helena notou uma gaveta entreaberta na mesa de mogno. Dentro, um livro-razão de capa preta repousava, com o nome de sua família gravado na lombada. Ela deu um passo à frente, a mão trêmula, mas parou ao perceber o reflexo de Arthur na janela de vidro. Ele a observava, imóvel, desde o momento em que ela entrara na sala.