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Chapter 11: Chapter 11

Capítulo 11: No penthouse, Helena e Eduardo analisam o segundo pen-drive editado por Mariana e consolidam o plano de contra-ataque para o gala. Eduardo revela parte da traição antiga que o marcou. No evento, Mariana tenta emboscar o casal com os novos boatos; Eduardo intervém publicamente, transformando a ameaça em afirmação de escolha mútua e elevando o status de Helena. De volta ao penthouse, eles ajustam a estratégia da entrevista e aceitam a crescente indistinção entre o falso noivado e o desejo real, estreitando o risco compartilhado.

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Chapter 11

A luz oblíqua do fim de tarde cortava o penthouse como lâmina de tribunal. Helena mantinha os dedos cravados na borda da mesa de vidro enquanto Eduardo inseria o segundo pen-drive. O clique soou seco, definitivo.

— Ela não errou a jugular — disse ele, voz baixa. Na tela, a gravação de quatro anos atrás aparecia reeditada com precisão cirúrgica: frases cortadas e coladas faziam Helena soar como cúmplice de chantagem antiga e Eduardo, o encobridor por interesse próprio. — Se vazar, minha herança entra em disputa judicial amanhã. O conselho já respira no meu pescoço depois do discurso de ontem.

Helena não piscou. O estômago apertou, mas a voz saiu firme, sem concessão:

— Então ela nos força a decidir: recuar ou sangrar em praça pública. Qual é o preço desta rodada?

Eduardo girou a tela para ela. Os áudios manipulados eram implacáveis: Helena parecia exigir dinheiro do ex em troca de silêncio sobre negócios sujos. Verdade suficiente para costurar a mentira e destruir reputações. Ele se recostou, ombros rígidos sob o paletó ainda aberto.

— O contra-ataque do gala não cobre mais. A entrevista que você aceitou tem de convencer advogados e conselho. Precisa parecer real o suficiente para não deixar brecha nenhuma.

O silêncio caiu, curto e pesado. Helena sentiu o peso concreto: ceder mais visibilidade ou arriscar que Mariana soltasse a bomba completa. Ergueu o queixo, a coluna reta.

— Não vou me esconder. Mas também não vou me entregar de bandeja. O que você perde se formos até o fim?

Eduardo sustentou o olhar. A máscara profissional rachou, revelando o cansaço acumulado.

— Já cancelei três reuniões importantes esta semana. Mais duas e os investidores começam a questionar se consigo gerir risco. Se a herança cair, perco o controle da empresa inteira. Não montei isso tudo para ver ruir por uma vingança antiga.

A luz dourada recortou as linhas duras do rosto dele. Helena registrou o custo real: não era só dinheiro. Era um homem apostando o que havia reconstruído com as próprias mãos.

Horas depois, a noite cobria São Paulo. Na varanda, o vento cortante batia contra o vidro. Eduardo segurava uma taça intocada. Helena encostou-se ao lado dele, ombros quase se tocando, sem se aproximar mais.

— Quatro anos atrás — começou ele, rouco —, confiei em quem não devia. Não foi você nem seu ex. Foi alguém que chamei de irmão nos negócios. A traição veio embrulhada em lealdade. Essa gravação cutuca exatamente essa ferida. Mariana sabe onde dói mais.

Helena virou o rosto. Nenhum olhar de pena, apenas reconhecimento seco.

— Eu sei o que é ser traída por quem você achava que conhecia. Não precisa explicar para ganhar minha confiança. Mas se vamos dividir o risco, preciso saber até onde você está disposto a ir.

Ele deu meio passo. O calor do corpo cortou o vento frio, mas as mãos permaneceram ao lado do corpo, contidas.

— Proteger você já me custou mais do que eu planejava admitir. Quanto mais fingimos, mais real fica o risco de eu não querer mais fingir. Mesmo assim, não vou te deixar cair sozinha.

As palavras ficaram suspensas no ar gelado. Helena sentiu a linha entre contrato e desejo se estreitar. Não recuou. Deixou o silêncio fazer o trabalho.

No gala da Associação Comercial, lustres de cristal lançavam luz sobre vestidos e ternos caros. Helena entrou ao lado de Eduardo, vestido preto impecável, queixo erguido. Os sussurros já corriam: #NoivadoConveniente misturado aos novos boatos plantados por Mariana.

Mariana surgiu elegante, taça na mão, sorriso afiado como lâmina.

— Que lindo vê-los tão unidos. Depois daquela gravação que circula entre os amigos... Alguns dizem que é só conveniência. Outros, desespero puro.

O salão pareceu encolher. Antes que Helena respondesse, Eduardo avançou um passo, a mão roçando de leve as costas dela — toque breve, público, que transmitia apoio sem posse.

— Conveniência seria fácil, Mariana. O que existe entre nós é escolha. Escolha consciente não se abala com montagens baratas. Helena não precisa ser resgatada. Ela escolheu ficar ao meu lado. E eu, ao dela. Quem duvidar, que traga provas concretas, não boatos de corredor.

Silêncio breve. Depois, aplausos discretos de alguns cantos, olhares calculistas de outros. Mariana empalideceu por fração de segundo. Eduardo havia transformado a emboscada em palco próprio. O preço estava nos rostos dos investidores que desviavam o olhar.

Helena sentiu o peso daquele gesto. Não era só proteção. Era ele arriscando a própria reputação diante de quem decidia o futuro da empresa. O calor subiu devagar: gratidão misturada a algo mais perigoso, nascido da ação, não de palavras vazias.

De volta ao penthouse, alta madrugada, o escritório parecia menor. A tela ainda exibia trechos manipulados. Helena sentou na borda da mesa, braços cruzados. Eduardo andava de um lado para o outro, passos curtos e precisos.

— O discurso funcionou — disse ela. — Mas Mariana não vai parar. A entrevista precisa expor as manipulações sem entregar a gravação completa. Depois, fingimos o noivado com mais convicção. Jantares, fotos, tudo que convença os advogados da herança.

Eduardo parou diante dela. A distância entre os corpos era curta demais para ser casual.

— Fingir com mais convicção significa deixar a linha desaparecer, Helena. Eu entendo o risco. E mesmo assim estou disposto. Porque ver você lutar sozinha me lembra demais do que quase perdi quatro anos atrás.

Ela desceu da mesa, ficando frente a frente. Olhos sem desvio.

— Eu não entrei nisso para ser salva. Entrei para reconstruir. Mas se a reconstrução passa por você... eu escolho o risco. Juntos.

O ar carregou-se de tensão contida. Herança, gravação, advogados, a cidade inteira observando — tudo empurrava os dois para o mesmo precipício. Fingir um noivado real o suficiente para convencer quem precisava ser convencido já não era apenas estratégia. Era o ponto onde atuação e verdade se confundiam irremediavelmente.

Helena sustentou o olhar dele um segundo além do necessário. Amanhã, na mesa do penthouse que já não parecia tão fria, faria a escolha final: aceitar a proteção que se tornara desejo. Desta vez, não precisaria mais perguntar.

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