Chapter 6
Helena girou a chave do escritório particular de Eduardo entre os dedos. O metal ainda guardava o frio do bolso do blazer. Eram 15h47 do dia 3. Em menos de cinco horas o gala começaria, e o convite digital que Mariana enviara pela manhã piscava na tela do notebook como uma ameaça cronometrada.
Ela estava sozinha na sala ampla quando Eduardo entrou. O terno escuro marcava os ombros com precisão cirúrgica. Os olhos dele carregavam a mesma cautela de quem já havia perdido muito por confiar. Parou a dois passos da mesa e notou a chave que ela não guardara.
— Mariana não esperou sexta-feira — disse Helena, voz baixa, sem tremor. — Mandou isso junto com o pen-drive novo. Quer que o gala seja nossa prova ou nossa execução.
Eduardo pegou o convite, leu o texto curto e devolveu-o sem pressa.
— Ela quer espetáculo. Vamos dar precisão. — Ele abriu o notebook. — Mas primeiro, vamos ver o que ela preparou de verdade.
Helena inseriu o pen-drive. A gravação antiga, agora editada com cortes impiedosos, começou a rodar. Sua própria voz, distorcida, soava como se ela soubesse das fraudes na herança de Eduardo desde o jantar de quatro anos atrás. Ao fundo, o riso abafado de Rafael. O vídeo terminava com sobreposição de fotos recentes do coquetel anterior.
Helena fechou o notebook com um clique seco.
— Ela não quer só me expor. Quer que pareça que eu traí você antes mesmo de nos “noivarmos”. Isso atinge sua herança e minha credibilidade de uma vez só.
Eduardo cruzou os braços, encostando-se na borda da mesa.
— Já cancelei três reuniões com investidores esta semana. Estão questionando se consigo proteger meus próprios interesses. Se isso vazar antes do gala, perco mais do que dinheiro. — Ele olhou para a chave que Helena ainda segurava. — Mas você tem acesso ao escritório agora. Isso não é mais só proteção minha. É risco nosso.
Helena sustentou o olhar. A chave, entregue naquela mesma manhã, ainda queimava na palma da mão. Não era gesto romântico. Era divisão concreta de poder — e de perigo.
— Minha família quer provas até sexta. Se eu aparecer sozinha no gala, vão achar que é teatro. Se formos juntos e a gravação explodir… — Ela endireitou os ombros. — Eu decido como entramos. Não como vítima. Nem como protegida. Como parceira.
Eduardo inclinou a cabeça. Um meio-sorriso breve, sem calor.
— Então vamos mapear o contra-ataque agora. Sem roteiro. Sem surpresas que não controlemos.
Passaram a hora seguinte lado a lado diante do notebook. Listaram nomes, contatos da família dela que podiam conter vazamentos, investidores que Eduardo ainda podia segurar. Cada decisão trocada era um ajuste de alavanca: ela oferecia influência social, ele cedia acesso a documentos que ninguém mais via. A proximidade não era calorosa. Era afiada, como lâmina contra lâmina.
Quando o relógio marcou 18h30, Helena se levantou.
— Vestido preto. Sem acessórios chamativos. Chegamos juntos, mas eu falo primeiro com minha mãe. Sem improvisos emocionais.
Eduardo assentiu.
— Entendido. E, Helena… se Mariana apertar demais, use a chave. O escritório é seu também agora.
A voz dele carregava algo novo: não ordem, nem proteção paternal. Reconhecimento de que ela podia, e devia, contra-atacar.
No Hotel Unique, o tapete vermelho brilhava sob flashes controlados. Helena entrou de braço dado com Eduardo, queixo erguido, passos medidos. O vestido preto simples cortava a luz como uma lâmina. Atrás deles, a família observava da primeira fila de mesas — a mãe com o cenho franzido, o irmão de braços cruzados, ainda cobrando a prova concreta prometida naquela tarde.
Mariana circulava como quem dona o salão, taça na mão, sorriso perfeito. Quando uma jornalista se aproximou, ela se colocou ao lado, voz doce e venenosa:
— Eduardo, conte para todos: esse noivado foi paixão ou apenas uma saída elegante depois do divórcio da Helena?
O burburinho silenciou. Câmeras viraram. Helena sentiu o braço de Eduardo enrijecer sob seus dedos, mas ele não recuou. Olhou para ela primeiro — olhar rápido, quase íntimo — antes de responder com voz firme:
— Foi uma escolha. Difícil, mútua e necessária. E continua sendo.
As palavras caíram pesadas. Não eram declaração de amor. Eram declaração de alinhamento. Helena apertou levemente o braço dele, sinal silencioso de que aceitava o terreno que ele acabara de ceder em público.
O coquetel seguiu. Taças tilintavam, risos falsos ecoavam. Até que Mariana subiu ao pequeno palco com ar triunfante.
— Um tributo especial ao casal do momento — anunciou, doce demais.
O telão acendeu. A montagem começou: trechos da gravação antiga, cortados para sugerir que Helena sabia de tudo, intercalados com fotos deles dois no coquetel anterior. A narrativa ficava clara — o noivado era cortina de fumaça para encobrir segredos antigos.
O salão murmurou. Olhares pesaram sobre Helena como julgamento coletivo. Ela sentiu o estômago apertar, não de medo, mas de raiva limpa e precisa. Era o mesmo tipo de humilhação que o divórcio lhe servira, só que agora em alta definição e com plateia paga.
Eduardo não esperou. Num movimento instintivo, passou o braço pela cintura dela, puxando-a contra o corpo com firmeza possessiva. Não era teatro ensaiado. Era reação crua. O calor da mão dele atravessou o tecido fino do vestido. Os flashes explodiram. Alguém soltou um “olhem só”. Mariana, ao fundo do palco, perdeu o sorriso por meio segundo.
Helena virou o rosto para ele. O olhar de Eduardo não era calculado. Era protetor, sim — mas também exposto. Ali, diante de São Paulo inteira, o noivado falso rachou. O gesto dizia o que nenhum contrato previa: ele não estava disposto a vê-la cair sozinha.
Ela não se afastou. Ergueu o queixo e deixou que o braço dele permanecesse. O calor subiu pelo pescoço, misturando raiva, gratidão e algo mais perigoso que ela ainda se recusava a nomear.
O gala continuou, mas o ar mudara. A cidade assistia. E o preço da proteção acabara de ficar visível para todos.
Helena sabia: amanhã a gravação vazaria parcialmente. Amanhã ela perderia um contrato importante. E Eduardo já estaria preparando uma solução que exigiria dela uma vulnerabilidade que jurara nunca mais oferecer.
Por enquanto, o braço dele ainda a segurava. E, pela primeira vez, o peso não parecia só custo.
Parecia escolha.