Chapter 4
Helena empurrou a porta do penthouse com o ombro, o clique da fechadura soando alto demais no silêncio das seis e quarenta da manhã. O sol ainda lutava para entrar pelas vidraças do alto, mas a luz que chegava era cinzenta, sem calor. A bolsa pesada escorregou de sua mão e bateu na cadeira de couro. Dentro dela, o envelope de Mariana queimava como uma brasa.
Eduardo estava de costas na ilha da cozinha, arrumando xícaras e talheres com precisão cirúrgica. A mesa de mármore branco já estava posta: café preto, pão fresco, frutas cortadas em fatias idênticas. Tudo impecável. Tudo frio como sentença de tribunal.
— Abriu? — perguntou ele sem se virar, a voz baixa e controlada.
Helena tirou o envelope da bolsa. O papel branco contrastava com o couro preto. Seus dedos rasgaram o selo com um ruído seco. O pen-drive caiu na palma da mão, pequeno, inocente e mortal.
— Abri. Mariana não perde tempo.
Ele girou devagar. Os olhos dele varreram o rosto dela, medindo. Não havia pena ali, só cálculo frio e algo mais fundo que Helena ainda não conseguia nomear.
— Eu já esperava. Desde o coquetel — disse ele, servindo café sem perguntar se ela queria. — Ela entregou isso na sua mão na frente de todo mundo. Foi um recado.
Helena cruzou os braços, o corpo ainda vestido com o tailleur do evento da noite anterior. O tecido cheirava a perfume caro e tensão.
— E você pagou o preço sozinho. Três reuniões canceladas com investidores. Isso não é detalhe, Eduardo. É dinheiro de verdade saindo do seu bolso para proteger um noivado que nem existe.
Ele colocou a xícara diante dela. O vapor subia reto no ar gelado da sala.
— Proteção nunca é de graça. Você sabe disso desde a assinatura naquela mesma mesa.
Helena pegou a xícara, mas não bebeu. O calor do porcelana queimava seus dedos. Ela precisava daquele ardor para se lembrar de que ainda controlava alguma coisa.
O celular vibrou sobre o mármore. Uma mensagem de Mariana. Anexo: um vídeo curto. Helena abriu. Imagens recortadas do jantar de quatro anos atrás. Vozes entrecortadas, risos que agora soavam ameaçadores, trechos onde o nome do pai de Eduardo surgia misturado a números e acordos que ninguém deveria ouvir.
Eduardo se aproximou por trás. Não tocou nela. Apenas parou perto o suficiente para que ela sentisse o calor do corpo dele contra o ar-condicionado gelado.
— Ela editou só o que interessa — murmurou ele. — A parte que liga a herança ao que aconteceu naquela noite.
Helena girou o corpo, ficando de frente para ele. A distância entre os dois era de menos de meio metro. Perigosa.
— E a herança do seu pai? Aquelas cláusulas morais que ele deixou... se isso vazar, você perde mais que reputação. Perde o controle da empresa toda.
O maxilar dele travou. Por um segundo, a máscara de controle rachou e Helena viu o peso real: não era só proteção a ela. Era sobrevivência dele também.
— Exato. Por isso cancelei as reuniões. Não posso deixar que Mariana transforme um jantar antigo em prova contra nós dois.
Helena respirou fundo. O cheiro do café misturado ao perfume dele invadiu seus sentidos. Ela odiava como aquilo a afetava.
— Não aceito ser protegida como se fosse uma dívida que eu nunca vou quitar. Quero transparência total. Se vamos usar esse noivado para ganhar tempo e calar a cidade, os riscos são nossos. Dos dois.
Eduardo sustentou o olhar. Depois, sem pressa, tirou do bolso uma chave fina de metal escuro e a colocou sobre a mesa, ao lado da xícara dela.
— Meu escritório particular. Documentos, contatos, senhas. Tudo aberto para você. Não é um favor. É divisão real de poder. Você decide o próximo passo comigo, não atrás de mim.
Helena olhou para a chave. O gesto era concreto. Não palavras bonitas. Ação. O tipo de compensação que ela entendia: poder trocado por poder.
Antes que pudesse responder, a campainha discreta tocou. Um mensageiro entregou outro envelope, selado com o mesmo lacre de Mariana. Helena abriu ali mesmo, na frente dele.
Dentro, um segundo pen-drive e um bilhete curto: “O jantar de quatro anos ainda não acabou. Amanhã a cidade inteira vai ouvir a parte que falta.”
Eduardo pegou o celular imediatamente. Digitou um número curto. A voz dele saiu baixa, cortante:
— É Eduardo. A matéria sobre o jantar antigo... atrase o máximo que puder. Custo não importa. Use o que for necessário.
Ele desligou. O silêncio que caiu foi pesado. Helena percebeu que, ao falar com o jornalista, ele havia se aproximado mais um passo. Agora os corpos quase se tocavam. O ombro dele roçava o dela. Nenhum dos dois recuou.
— Isso vai custar caro — disse ela, a voz mais baixa do que pretendia.
— Já está custando. — Os olhos dele desceram para a boca dela por uma fração de segundo, depois voltaram. — Mas não vou deixar que ela transforme você em alvo fácil outra vez.
Helena sentiu o peito apertar. Não era gratidão barata. Era o reconhecimento frio de que a proteção dele tinha dentes: custava dinheiro, influência e, agora, a distância emocional que ela tanto precisava manter. A distância estava derretendo, e ela não sabia se odiava ou temia isso.
Ela guardou a chave no bolso do tailleur. O metal estava quente do contato com a mão dele.
— Amanhã a família vai saber. Eles não aceitam mentiras por muito tempo. E se o meu ex aparecer com aquele sorriso que ele usa quando quer fingir que sente muito... vai complicar tudo.
Eduardo assentiu, o olhar ainda preso no dela.
— Então vamos estar prontos. Juntos.
O sol finalmente atravessou a vidraça, iluminando a mesa fria. O café da manhã continuava intocado. Mas entre eles, algo havia mudado de patamar. O noivado falso já não era só estratégia. Era um campo minado onde cada passo compartilhado custava mais caro — e, pela primeira vez, Helena admitiu para si mesma que não queria mais atravessá-lo sozinha.