Chapter 5
Às oito e dez da manhã, o agente da fiscalização já tinha a mão no portão.
Não bateu. Nem pediu licença. Só ergueu a prancheta, leu a lista de itens não inventariados e falou como quem recita uma regra que já venceu a casa antes mesmo de ser aplicada.
— Até o fim do dia, o que não estiver no inventário vai ser recolhido. Se houver resistência, a casa pode ser lacrada antes do pôr do sol.
Lívia sentiu a frase bater no corpo inteiro, seca, sem espaço para interpretação. Quatro dias. Era o que faltava para a transferência da venda. Quatro dias para a casa ancestral do cais pequeno sair das mãos da família e cair em terreno hostil. E agora o relógio tinha ganhado um novo dente: horas, não dias.
Ela estava com a pasta do cartório apertada contra o peito, o bilhete do Jardim Europa dobrado na carteira, e a sensação de que qualquer movimento errado faria sumir a única trilha que não podia perder. Atrás dela, Dona Nadir se mantinha no corredor estreito, o lenço torcido na mão, o rosto fechado daquele jeito antigo que ela usava quando não queria dar ao medo o prazer de aparecer. Bento, encostado na sombra da oficina, observava a rua como quem mede a distância entre uma ameaça e a vergonha de ter que pedir ajuda a ela.
O agente avançou um passo, sem ultrapassar de imediato o limite do portão. Era um homem de camisa clara, voz limpa e olhos de quem já se acostumara a encontrar gente quebrada na lateral dos procedimentos.
— A casa está parcialmente marcada. O que não for inventariado hoje entra no protocolo de recolhimento.
— Isso inclui documento de cartório? — Lívia perguntou, já abrindo a pasta.
Ele hesitou só o tempo necessário para não parecer humano.
— Se o documento for apresentado como peça de investigação, precisa ser comunicado. Sem isso, entra como item avulso.
Bento soltou um ar pelo nariz, curto e descrente.
— “Item avulso” é o jeito bonito de dizer roubo com papel.
Dona Nadir lançou a ele um olhar que o calou na hora, mas não por muito tempo. Ela estava de frente para o agente, ombros firmes, como se fosse possível impedir o avanço de uma máquina com o corpo.
— Essa casa não é sucata de inventário — disse ela. — É memória de gente viva.
O agente não se comoveu. Apontou o lacre amarelo já colado de lado no batente, novo, agressivo, com a autoridade de quem assina em cima de uma ferida.
— Memória não altera prazo.
Lívia abriu a pasta e retirou primeiro as cópias do cartório, depois o aviso de venda com o selo amarelo já meio danificado desde o dia anterior. Não levantou o papel como prova heroica; colocou sobre o portão, bem à vista, para obrigá-lo a ler. A anotação de circulação interna, a referência cruzada com o livro-caixa, a morte antiga e a venda estavam ali, carimbadas, encadeadas como peças que alguém tinha escondido mal demais para não deixar rastro.
— Então leia — ela disse. — Essa linha não é inventário. É investigação. O livro-caixa não está na casa principal porque foi retirado antes da fiscalização. E o cartório reconhece a circulação interna.
O agente baixou os olhos para o papel. Seu rosto não mudou, mas a mão sobre a prancheta apertou um pouco mais forte.
— Isso não suspende recolhimento.
— Não suspende? — Lívia deu um passo à frente. — Então deixa eu ser bem clara: recolher esse material agora é apagar prova sobre uma morte antiga dentro de uma casa que está sendo vendida em quatro dias.
A palavra morte fez o ar mudar. Não por drama. Por custo.
Bento endireitou o corpo. Dona Nadir ficou mais imóvel ainda. O agente finalmente olhou para ela, talvez calculando o tamanho do problema que poderia carregar se tocasse no que estava sobre o portão. Não era medo; era prudência treinada.
Foi quando o celular de Lívia vibrou no bolso. Uma vez. Duas.
Caio.
Ela não atendeu de imediato. O agente viu o aparelho e a viu escolher a chamada, e essa escolha também virou informação para ele.
— Atenda se quiser — disse, seco. — O protocolo não espera conversa.
Lívia deslizou o dedo sobre a tela.
— Você está na frente da casa? — a voz de Caio veio baixa demais para ser casual.
— Estou com a fiscalização no portão.
Um silêncio curto. Tenso o bastante para denunciar que ele já sabia mais do que dizia.
— Então não mostre o bilhete do Jardim Europa.
Ela sentiu o estômago fechar.
— Como você sabe do bilhete?
— Lívia, escuta com atenção. Se isso sair do inventário agora, eles recolhem antes de você conseguir cruzar com o endereço. E se o recolhimento for formal, você perde a chance de contestar sem se comprometer.
Ela quase riu de raiva. Quase.
— Você liga para me avisar ou para me enterrar com educação?
— Para impedir que você force a mão errada.
A linha chiou. E, por cima do chiado, um som de fundo — porta de carro, metal batendo, rádio de procedimento — entregou a resposta mais do que o discurso: Caio não estava longe. Não era só advogado ligado ao processo. O sistema inteiro já se movia com ele.
Antes que ela retrucasse, ele completou:
— Eu mandei o aviso par
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