The First Lead
Lívia viu o selo amarelo antes de reconhecer o próprio portão.
Era um aviso de cartório, plastificado e torto na madeira inchada pela maresia, com a frase que fez o corpo dela endurecer por dentro: venda com transferência em quatro dias. Abaixo, em letras secas, vinham vistoria autorizada, retirada de bens móveis e acesso restrito ao inventário. Antes que o prazo acabasse, a casa, a oficina e o que ainda restava de nome e de memória ali passariam para mãos hostis.
Ela arrancou o papel com força demais; a cola levou um pedaço da tinta junto.
— Quem fez isso? — perguntou, mas a voz saiu para a varanda vazia.
Dona Nadir apareceu no corredor, apoiada na bengala. Pequena, firme, a raiva sustentando o que o corpo já não sustentava sozinho. O pano na cabeça estava torto; ela o ajeitou sem desviar os olhos do selo na mão da sobrinha.
— Entraram com papel — disse. — Com assinatura. Não precisaram arrombar nada.
Lívia olhou para a fachada. Havia também uma marca vermelha de giz no batente, discreta e cruel. Não era superstição de beira de cais. Era o sinal de vistoria. Alguém tinha tratado a casa ancestral como item de processo.
— O fiscal veio sozinho? — ela perguntou, embora já desconfiasse da resposta.
Dona Nadir apertou a bengala.
— Veio com um homem que falava bonito demais. Caio Menezes.
O nome ocupou a varanda como se fosse outro ocupante da casa.
Lívia sentiu o impulso de negar, de buscar uma falha de procedimento, qualquer erro que ainda coubesse num recurso. Mas o selo estava ali. A data também.
Quatro dias.
Ela entrou sem pedir licença à tristeza.
A sala principal guardava a mesma luz amarelada de sempre, só que agora parecia menor. Sobre a mesa de madeira havia a cópia da notificação, o formulário de vistoria e uma folha destacada com o prazo para transferência. Tudo limpo demais para aquele lugar.
— Onde está o original? — Lívia perguntou.
— Levaram o primeiro. Deixaram o que queriam que eu visse.
Ela pegou a notificação. No verso, quase escondida sob o vinco do papel, havia uma observação manuscrita, em letra miúda e apressada demais para ser de funcionário de cartório:
Se ele ainda estiver aqui, a oficina é o primeiro lugar.
Lívia prendeu a respiração por um segundo. Aquilo não estava no processo. Não deveria estar em lugar nenhum.
— Quem escreveu isso?
Dona Nadir demorou a responder.
— Quem escreveu sabia demais. E sabia que iam procurar primeiro a casa.
O celular vibrou no bolso de Lívia. Ela não olhou a tela, mas sabia quem podia ser.
— Ele veio antes do cartório? — perguntou.
— Veio com o homem do papel. Falou baixo, como quem oferece ajuda. Depois falou de dívida, de risco, de regularização. E falou do nome do teu tio como se ele estivesse enterrado duas vezes.
A frase atingiu mais fundo do que o aviso. O velho morto da família nunca tinha sido simples, mas o jeito como Caio rondava tudo fazia parecer que alguém estava tentando usar o passado como alavanca.
Lívia seguiu para os fundos.
— Se vasculharam a casa, a oficina foi a primeira coisa que abriram — disse, já no corredor.
— Foi o que eu disse a ele — respondeu Nadir. — Não tocou em nada. Mas olhou como quem já sabe onde está o que procura.
A oficina ficava no anexo apertado do quintal, entre o tanque quebrado e a parede comida pela maresia. O cheiro veio antes da visão: ferrugem, pano úmido, óleo velho. Havia ferramentas antigas penduradas tortas, caixas de pregos, retalhos e a velha máquina de costura coberta por um lençol cinzento. O lugar inteiro parecia algo q
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