Chapter 9
A hora extra que não era vitória
A nova notificação chegou antes mesmo de Helena conseguir devolver o ar ao peito. O menino do cartório atravessou a porta quase correndo, enfiou o papel na bancada de corte e fugiu sem pedir confirmação, como se o envelope queimasse os dedos. Helena já conhecia aquele tipo de pressa: não vinha com novidade, vinha com crueldade.
Ela leu uma vez, depois outra. O cartório mantinha a venda em movimento e agora falava em horas, não em dias. Quatro horas, no máximo, até a transferência avançar para as mãos de Otávio Brandão se nada fosse feito. O texto estava limpo demais para a violência que trazia.
Do lado de fora, o carro escuro continuava parado na rua, meio enterrado na sombra do poste, vigiando a oficina como quem toma conta de uma cerca já derrubada. Lá dentro, costureiras e clientes fingiam normalidade com os olhos presos no papel. Helena sentiu o peso daquelas pessoas antes de sentir o próprio medo. Se a oficina caísse, elas perdiam salário, mesa, endereço, rotina, abrigo. Não era um imóvel. Era um ponto de sustentação.
— Quatro horas — ela disse, e a própria voz pareceu mais seca do que esperava.
Guilherme pegou a notificação sem tocar nela. Leu com o maxilar travado, a elegância habitual reduzida a disciplina. Quando terminou, devolveu o papel na bancada e falou baixo, para não dar à rua o som da queda.
— Isso não é só pressão do cartório. É resposta coordenada. Eles querem que você assine sob pânico.
Helena ergueu o olhar.
— E você continua me explicando o golpe como se isso me poupasse dele.
— Não poupa. Evita que você entre no ritmo deles.
A resposta cortou mais do que ela queria admitir. Guilherme estava ali sem volume, sem gesto grandioso, e ainda assim expondo o próprio nome ao lado do dela desde a manhã anterior. Helena sabia o que isso custava em uma família que media lealdade como prejuízo.
Antes que ela respondesse, Lia apareceu da sala dos fundos com a caixa de linhas apertada contra o peito. Não havia teatro no rosto da menina; havia decisão. Ela abriu a tampa, puxou da costura interna um bilhete dobrado e colocou na mão de Helena.
— Tava escondido aqui — disse, quase num sopro. — Ninguém viu sair.
Helena desfez a dobra com cuidado. A frase era curta, escrita às pressas, com a fibra do papel marcada pela costura: hoje, no porto. Cais 3. Entrega interna. Não confie no nome de dentro.
O ar mudou na oficina.
Guilherme leu por cima do ombro dela. O olhar dele se fixou no canto do papel onde um carimbo parcial ainda resistia, borrado pela pressão dos dedos de quem o escondera.
— Iss
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