O Silêncio de Seis Dias
O relógio da torre da cidade-santuário bateu meia-noite. O som, um bronze pesado e autoritário, não apenas marcou o tempo; ele selou o destino de Beatriz. Para o resto da cidade, era o fim de um dia comum. Para Elias, era o início de uma contagem regressiva de 144 horas. Em seis dias, o leilão de ativos dos Albuquerque seria concluído, e com ele, qualquer rastro documental do "Livro Negro" seria incinerado.
Elias ajustou a lanterna, a luz cortando a escuridão do arquivo privativo da mansão. O ar ali dentro cheirava a papel envelhecido e a algo mais ácido: o odor de registros sendo sistematicamente expurgados. Ele não estava ali por dever profissional, embora sua credencial de arquivista fosse o único escudo que o impedia de ser arrastado pelos seguranças. A polícia já tinha o relatório de "fuga voluntária" pronto para ser assinado, e o Patriarca dera ordens diretas para que o escritório fosse limpo até o amanhecer.
Beatriz não fugia; ela era caçada de dentro para fora. Elias passou os dedos pelas lombadas dos livros-razão, sentindo o peso do que estava prestes a desaparecer. Ele procurava por uma falha, uma brecha na narrativa oficial que a família tentava impor.
No canto mais remoto da estante, atrás de uma fileira de registros fiscais de 1994, seus dedos encontraram algo que não deveria estar ali: um selo de cera rompido. Atrás dele, um dispositivo de gravação de rolo, um objeto arcaico em uma era de vigilância digital, pulsava como um coração escondido. Ele apertou o botão de reprodução.
O chiado estático preencheu o silêncio, uma estridência que parecia arranhar as paredes de pedra.
— Elias, se você está ouvindo isso, o relógio já começou a correr — a voz de Beatriz emergiu, clara, desprovida de qualquer pânico, carregando a precisão de quem dita uma sentença. Ao fundo, o som dos sinos da igreja de São Judas ecoou com a precisão de um martelo batendo em uma bigorna. — Não me procure. Eles já estão queimando os registros. O Livro Negro não é o que meu pai diz ser; é o mapa da nossa dívida de sangue com esta cidade. Se você quer ser o herói, prepare-se para ser o bode expiatório.
O estômago de Elias revirou. O som dos sinos não era ruído ambiente; era um marcador geográfico. Beatriz o escolhera como peão, não como salvador, e o peso daquela revelação o atingiu como um golpe físico. Ele guardou o gravador no bolso do paletó, o metal queimando contra sua pele, e tentou sair do arquivo.
O som de passos ritmados, pesados e deliberados, ecoou no mármore do corredor externo. Elias empurrou a porta lateral, tentando alcançar a capela anexa, mas uma silhueta alta bloqueou o caminho. O Patriarca, com seu terno impecável e o olhar de quem já havia enterrado segredos muito maiores que uma herdeira rebelde, estava parado diante dele. O ar, antes carregado de poeira, agora parecia saturado de incenso e ameaça.
— A curiosidade é um vício que custa caro nesta cidade, Elias — disse o Patriarca, sua voz modulada como uma oração. Ele não parecia um homem preocupado com o desaparecimento da filha, mas com a manutenção de uma fachada de vidro que Elias acabara de trincar.
Elias tentou manter a compostura, embora o coração batesse contra as costelas como um animal enjaulado. A porta principal da mansão estava vigiada. Ele estava acuado.
— Beatriz não está desaparecida por acidente, está? — a voz de Elias saiu mais firme do que ele se sentia. — Ela deixou um rastro. E eu tenho a chave.
O Patriarca sorriu, um gesto que não alcançou seus olhos frios. Ele sinalizou para o chefe da segurança, que bloqueou a saída da capela com uma impassibilidade petrificada.
— Você tem seis dias, arquivista. Até lá, o arquivo será cinzas, e você será apenas um homem desempregado e sem reputação. Entregue o que encontrou, ou descubra o que acontece com quem tenta reescrever nossa história.