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Chapter 2: A Prova de Fogo

Helena enfrenta a pressão da elite paulistana durante um almoço de negócios onde sua reputação é questionada. Rafael a protege de forma agressiva, revelando uma possessividade que a coloca em risco. O capítulo termina com Rafael revelando um relicário que Helena acreditava ter perdido, enquanto um relatório sobre a vida privada dela chega às mãos dele, preparando o terreno para a descoberta do filho.

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A Prova de Fogo

O ar na suíte do Fasano parecia rarefeito, carregado com o cheiro de mogno polido e a eletricidade estática de uma negociação que Helena já perdera antes mesmo de começar. Ela mantinha as mãos cruzadas atrás das costas, os dedos cravados na palma, forçando a imobilidade. À sua frente, Rafael girava uma caneta tinteiro com uma cadência metódica, um tique que ela reconhecia de cinco anos atrás, quando ele ainda não era o homem que agora detinha o controle total de sua ruína financeira.

— O contrato é o seu novo norte, Helena — disse ele, a voz desprovida de qualquer calor. — Doze meses. Você será a face pública da minha reestruturação. A imprensa não quer escândalos, quer estabilidade. Você vai me entregar essa narrativa.

— E em troca, o silêncio sobre a minha vida financeira e a preservação do que restou da minha reputação — ela respondeu, a voz firme, embora o estômago desse voltas. — Não espere uma marionete. Se vou aceitar esse papel, as condições serão estritamente profissionais.

Rafael levantou-se, contornando a mesa com a lentidão calculada de um predador. Ele parou a centímetros dela. O perfume amadeirado, que ela tentara apagar da memória, invadiu seu espaço pessoal, forçando-a a recuar um passo imperceptível.

— Profissionalismo é um luxo que não temos — ele retrucou, o olhar fixo no dela, buscando uma brecha que ela não pretendia dar. — A cláusula de residência está mantida. Você se mudará para a cobertura até o final da semana. É uma questão de logística, não de preferência.

Helena sentiu a armadilha se fechar. Sua autonomia, a fortaleza que construíra para proteger Leo, estava sendo demolida tijolo por tijolo. Ela não tinha escolha; a dívida era real, e a exposição de seu passado seria o fim de tudo o que ela construíra.

*

No dia seguinte, o restaurante nos Jardins era um aquário de vidro e polidez. Otávio, o sócio de Rafael, observava-os com um sorriso que não chegava aos olhos, a faca cortando o filé com uma precisão cirúrgica.

— Cinco anos, Helena — comentou Otávio, sem desviar o olhar do prato. — Um hiato longo demais para alguém que, de repente, se torna a noiva de Rafael. O mercado não perdoa sumiços. Que tipo de garantia você oferece para esta aliança?

Helena manteve a coluna reta, sentindo o peso do olhar de Rafael sobre si.

— Minha competência é minha garantia, Otávio. Rafael não investe em amadores.

— O mercado quer saber se você é um ativo ou um passivo — Otávio insistiu, inclinando-se para a frente. — Dizem que você vivia uma vida invisível. Talvez com obrigações que não incluem a alta sociedade.

O medo de que Leo fosse mencionado fez os nós dos dedos de Helena embranquecerem sob a toalha de linho. Antes que ela pudesse responder, Rafael interrompeu, a voz cortante como vidro quebrado.

— O ativo que Helena traz é a inteligência que você subestima, Otávio — Rafael declarou, pousando o guardanapo com uma calma que não alcançava seus olhos frios. — Se prefere questionar a minha escolha a discutir os termos da fusão, podemos encerrar este almoço agora. Mas saiba que o custo de sua grosseria será a rescisão imediata do nosso acordo de parceria.

Otávio empalideceu. O silêncio que se seguiu foi absoluto. Rafael sacrificara um contrato de milhões apenas para calar uma insinuação sobre ela. Helena percebeu, com um calafrio, que a proteção dele não era teatro social; era uma possessividade perigosa que a colocava sob um holofote que ela desesperadamente queria evitar.

*

Dentro do carro oficial, o silêncio era denso. Helena observava as luzes da cidade, sentindo a proximidade de Rafael como uma queimadura.

— Você não precisava ter feito aquilo — ela disse, sem olhá-lo. — O contrato exige que eu seja sua noiva, não sua protegida.

Rafael virou-se, o olhar fixo nela. — A diferença entre os dois é o que me impede de pedir o divórcio antes da primeira coletiva. Eu não estou apenas protegendo o contrato. Estou protegendo o que é meu.

— Eu não sou sua — ela retrucou.

— Não é? — Ele deu um sorriso amargo. Quando o carro parou diante do prédio de Helena, ele não a deixou sair. Seus dedos mergulharam no bolso do paletó, um movimento deliberado. Ele abriu a palma da mão, revelando um pequeno relicário de prata, com a corrente fina emaranhada.

O sangue de Helena gelou. Era o objeto que ela acreditava ter perdido na noite em que fugira, cinco anos atrás.

— Você guardou isso? — ela sussurrou, a voz falhando.

Rafael não respondeu, mas o brilho em seus olhos confirmou que ele nunca a esquecera. Ele estava mais perto da verdade do que ela jamais imaginara, e o relicário, brilhando sob a luz interna do carro, era a prova física de uma obsessão que ameaçava arrastar toda a sua vida oculta para o centro da arena pública. Enquanto ela saía do carro, um mensageiro aguardava na portaria com um envelope pesado, selado com o brasão da família de Rafael. O investigador contratado finalmente entregara o relatório sobre sua vida privada, e Rafael, no banco de trás, observava o envelope com uma curiosidade que prometia destruir o pouco que restava da paz de Helena.

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