O Próximo Degrau
O zumbido do núcleo de pulso era uma serra elétrica contra o crânio de Kaelen. A câmara de controle da arena, antes um santuário de dados assépticos, colapsava em uma sinfonia de faíscas azul-elétricas e painéis de vidro estilhaçados. Kaelen estava preso à interface, os cabos de sincronia enterrados na carne do seu antebraço como parasitas famintos. O sistema gritava um erro de redundância, mas ele não soltou.
— Vamos, seu lixo de metal — sibilou, o suor misturado a sangue escorrendo pelos olhos. O painel de dívida da Academia, aquele contador onipresente que drenava sua vitalidade, piscava em um vermelho agônico: 4.200 Éter-Créditos. Era a medida do seu fracasso, a corrente que o prendia à servidão. Com um esforço de vontade que fez seu núcleo interno vibrar em agonia, Kaelen forçou a sobrecarga. Ele injetou o código proibido que encontrara no leilão de lixo diretamente no barramento central. A resposta não veio como um erro, mas como um gemido mecânico que sacudiu a estrutura. O contador de dívidas travou. Por um milissegundo, os dígitos giraram em um borrão frenético, reescrevendo a arquitetura financeira daquela filial da Seita. Então, o brilho cessou. O número desapareceu, substituído por um vazio absoluto. A dívida fora deletada. O custo, porém, foi imediato: a energia de retorno atingiu Kaelen como um martelo, e ele foi arremessado contra os escombros, o cristal de memória — contendo os segredos da colheita genética — apertado contra o peito como um troféu de guerra.
Ao emergir dos escombros do Nível 4, o ar cheirava a ozônio e plástico queimado. Kaelen cambaleou, o ombro latejando onde a interface havia tentado sugar sua medula óssea. Foi lá que encontrou Jiro. O prodígio da elite não parecia um vencedor; sua túnica estava chamuscada e o braço de seu mech faiscava.
— A rede caiu — disse Jiro, a voz desprovida de sua arrogância habitual. — A Seita Central já enviou uma equipe de extermínio. Eles não vieram consertar a infraestrutura, Kaelen. Vieram para apagar qualquer um que tenha visto a colheita.
Kaelen sentiu o peso do cristal. O segredo da colheita genética agora era sua propriedade, mas a dor da fusão, um fogo contínuo em seu núcleo, era um lembrete constante de que ele era uma bateria humana em vias de exaustão.
— Minha linhagem está sendo drenada — continuou Jiro, dando um passo à frente. — Meu pai acreditava que éramos sócios da Seita, mas somos apenas estoque. Se você quer sobreviver, não pode fugir como um rato. Precisa ser o predador que eles criaram.
O portão principal da Academia, outrora símbolo de prestígio, rangia sob o peso da destruição. Mestra Vala bloqueava a saída, seus sensores de combate emitindo um brilho carmesim.
— O sistema pode ter caído, Kaelen, mas a dívida de sangue da sua família é um contrato eterno — ela declarou, a voz como lâmina. — Entregue o cristal.
Kaelen não respondeu com palavras. Ele canalizou a energia residual de sua sincronia de 44% diretamente para o chassi de seu protótipo. O braço mecânico sibilou, sobreaquecendo. Com um movimento preciso, ele sobrecarregou a rede de sensores de Vala, disparando um pulso de feedback que a fez vacilar, seus olhos digitais piscando em erro. Ela ficou para trás, humilhada pelo próprio sistema que a sustentava, enquanto as naves da Seita Central bloqueavam o horizonte.
No limite do Setor de Dívida, Kaelen e Jiro pararam. Atrás deles, a Academia era uma carcaça fumegante. O céu, porém, revelava uma visão monumental: a Cidade Flutuante da Seita Central brilhava como uma joia fria acima das nuvens. Kaelen sentiu a dor do núcleo, mas o medo havia sido substituído por uma clareza cortante. O placar de ranking estava morto, a dívida deletada, mas o jogo apenas começara. Ele não era mais um aluno buscando aprovação; era um invasor carregando a prova da corrupção da Seita.
Ele olhou para o horizonte, onde a cidade flutuante dos mestres o aguardava, o próximo degrau de sua ascensão, pronto para ser conquistado ou queimado.