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Chapter 2: O Peso da Caneta

Arthur confronta Roberto no estacionamento, mantendo sua postura de controle. Ele recruta Beatriz Lemos, revelando ser o credor oculto da subsidiária de energia, e juntos descobrem provas irrefutáveis de que Roberto desviou verbas da revitalização costeira para contas pessoais.

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O Peso da Caneta

O estacionamento da construtora, no Rio de Janeiro, cheirava a concreto úmido e a exaustão de luxo. Arthur Valente caminhava em direção ao seu sedã, um veículo discreto que parecia uma afronta ao design agressivo das máquinas esportivas dos outros diretores. O som de passos firmes e o tilintar metálico de chaves ecoaram pelo ambiente antes que ele pudesse alcançar a porta. Roberto Siqueira bloqueou o caminho, o rosto contraído em uma máscara de desdém que mal escondia a pulsação errática em sua têmpora.

— Você acha que uma vírgula mal colocada na cláusula 14.B é um escudo, Arthur? — Roberto sibilou, o hálito carregado de café e ansiedade. — Aquele contrato era um teatro para te dar uma saída elegante. Se você não assinar até a próxima reunião, vou destruir cada resto de reputação do seu sobrenome. Tenho dossiês sobre as dívidas ocultas da sua família que farão você ser expulso do mercado, não apenas da diretoria.

Arthur parou. O reflexo de ambos no vidro escuro da janela traseira do carro mostrava a disparidade: Roberto parecia um homem em desespero, enquanto Arthur, com as mãos nos bolsos, mantinha uma postura de observação cirúrgica. O reflexo não mentia: Roberto era o predador acuado, não ele.

— O mercado não se importa com dossiês, Roberto. Ele se importa com solvência — respondeu Arthur, a voz baixa e precisa. — E, neste momento, a sua está começando a vazar.

Roberto riu, um som seco e sem humor, e se afastou, convencido de que o silêncio de Arthur era mera covardia. Arthur esperou o motor do Porsche de Roberto desaparecer na rampa de saída antes de sacar o celular. Ele discou um número que não estava nos contatos da empresa.

— Beatriz. Precisamos de uma auditoria completa. Agora.

Meia hora depois, em um café de luxo na zona sul, o ambiente era gélido, mas o olhar de Beatriz Lemos queimava. Ela estava sentada com a postura impecável de quem teme ser vista em má companhia.

— Você perdeu a cabeça? — ela murmurou, a pasta de couro sobre os joelhos servindo como barricada. — Roberto já está reunindo assinaturas para uma nova votação. A cláusula 14.B pode segurar por um dia. Depois disso, você vira um ex-conselheiro com o nome sujo em toda a Faria Lima.

— E você? — Arthur perguntou, sem tocar no café. — Vai continuar assinando os relatórios que ele manda, sabendo que são ficção contábil?

Beatriz hesitou. A xícara de espresso tremeu levemente sob a ponta de seus dedos. — Meu contrato é com a empresa, Arthur. Se eu me queimar defendendo um acionista que todos consideram um peso morto, acabo na rua. Eu não tenho rede de proteção.

— Lembra do aporte de três anos atrás na subsidiária de rede elétrica? O que salvou o projeto de revitalização quando o banco recusou? — Arthur deslizou um envelope fino pelo mármore da mesa. — Roberto disse que foi sorte. Não foi. O fundo estrangeiro que salvou a subsidiária é meu. Eu sou o credor majoritário oculto desse projeto. Se eu retirar o aporte, a empresa entra em colapso técnico antes do fechamento do trimestre.

Beatriz abriu o envelope. À medida que seus olhos percorriam os documentos, o ceticismo deu lugar a uma faísca de ambição calculada. Ela não estava mais olhando para um herdeiro negligenciado, mas para o homem que segurava a corda do pescoço de todo o conselho.

— Se isso for real… — ela começou, a voz perdendo o tom defensivo.

— É real. E é a sua chance de sair da sombra de Roberto. Vamos ver o que ele escondeu sob o balanço oficial.

O escritório de Beatriz, um aquário de vidro fosco, tornou-se o cenário de uma desconstrução metódica. Nas telas, o rastro digital de Roberto Siqueira brilhava como uma confissão. Ele não apenas desviara verbas da revitalização; ele as canalizara para uma conta pessoal em nome de uma empresa de fachada que carregava o nome de sua ex-esposa. Era um erro de amador, nascido da arrogância de quem acredita que ninguém ousa olhar para baixo da superfície.

— Ele não teme ser pego porque acredita que o conselho inteiro é cúmplice ou, no mínimo, incompetente demais — Arthur observou, a luz fria do monitor refletindo em seus olhos. — Ele tratou o patrimônio da empresa como seu cofre pessoal. Isso não é apenas um desvio, Beatriz. É a assinatura da ruína dele.

Beatriz virou-se, a expressão profissional dando lugar a uma determinação predatória. Ela finalmente compreendia a extensão do jogo. Com a prova do desvio em mãos, o poder de barganha de Roberto evaporou. O conselho não tinha mais uma escolha política; eles tinham uma obrigação legal de agir, ou afundariam junto com o presidente.

— Amanhã, na reunião de emergência — disse Beatriz, fechando o arquivo — ele não vai nem conseguir terminar a frase de abertura.

Arthur assentiu. A vingança estava pronta, e o tabuleiro estava montado. Ele sabia que, ao derrubar Roberto, o conselho tentaria encontrar um novo culpado, mas, pela primeira vez, ele estava pronto para assumir o controle da pauta.

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