Sombras na Engrenagem
O feedback neural atingiu Kaelen como um martelo hidráulico no centro do crânio. A marca de 72% de sincronia não era apenas um número no HUD; era um abismo de eletricidade estática corroendo suas sinapses. Dentro da cabine do frame, o ar tinha gosto de ozônio e metal queimado. O 42º andar da Torre não era uma estrutura de suporte, como diziam os manuais oficiais; era um nódulo de drenagem, um compressor de almas onde o chassi de Kaelen vibrava em ressonância com a própria fundação da Torre.
— Kaelen, sai dessa frequência agora! — A voz de Soraia, filtrada por uma estática violenta, mal conseguia atravessar o protocolo de purga que o sistema tentava, pela terceira vez, forçar sobre ele. — O protocolo de autodestruição está reescrevendo o seu link. Se não desconectar, a Torre vai te apagar como um erro de sintaxe.
Kaelen sentiu o Módulo Proibido pulsar contra sua espinha, uma presença fria e faminta. Ele não podia recuar. A purga automática já tinha isolado seus estabilizadores de manobra, deixando o frame pendurado sobre o vazio, com a armadura externa gritando sob a pressão da gravidade artificial do nível. Ele forçou a integração, hackeando a purga. Em vez de lutar contra a energia, ele a canalizou, transformando a tentativa de destruição em uma sobrecarga bruta que forçou os sistemas de segurança a recuarem, mas ao custo de deixar seu frame em estado crítico.
Ele mal teve tempo de estabilizar o chassi antes de se arrastar para os dutos de ventilação do 43º andar. O cronômetro em sua visão periférica pulsava em vermelho. O ar ali tinha o gosto metálico de ozônio e desespero. Ele congelou ao ver uma silhueta movendo-se com precisão cirúrgica sobre os cabos de alimentação da rede principal. Não era um técnico. A forma como o homem ajustava os sensores de Kaelen — instalando um dispositivo de pulso eletromagnético diretamente no chassi — denunciava um profissional da casa. Um espião de Valerius.
Kaelen não hesitou. Ele usou a inércia do frame para prensar o intruso contra a parede de concreto reforçado.
— Valerius não paga o suficiente para você morrer por ele — sibilou Kaelen, a voz distorcida pelo sistema de áudio. O espião sorriu, ativando um detonador. Antes que a carga explodisse, Kaelen mergulhou na interface neural do Módulo Proibido, forçando uma leitura bruta da mente do espião. O choque de dados foi quase fatal. Valerius não era o topo; ele era apenas um cão de guarda aterrorizado pela tecnologia que Kaelen carregava. O espião foi neutralizado, mas o custo foi alto: o frame começou a colapsar sob o estresse.
Enquanto Kaelen fugia para a zona morta entre os andares, o Módulo interceptou uma frequência criptografada.
— Kaelen, não precisa morrer por uma peça de sucata — uma voz feminina e gélida ecoou em seus receptores. — A Resistência conhece a chave que você carrega. Entregue-a e a rota de fuga é sua. O Expurgo de Valerius está a dois níveis abaixo. Você não tem tempo.
Kaelen disparou um gancho para o próximo nível, sentindo o calor da falha crítica subir pela espinha. Se entregasse a chave, perderia sua única vantagem contra a hierarquia da Torre.
— Eu não confio em sombras — ele sibilou, enquanto o sistema de resfriamento entrava em colapso, emitindo um apito agudo que denunciava sua localização para os rastreadores de elite que subiam em sua perseguição.
Ele aceitou o contato, mas recusou a entrega. Agora, ele não era apenas um alvo da Torre; ele era a peça central em um jogo de xadrez onde tanto a elite corporativa quanto a resistência invisível exigiam o que ele carregava no peito. O frame estalou, as juntas cedendo sob o peso da carga. Ele precisava de peças de alta performance do próximo nível, e precisava delas agora, ou seria desintegrado antes de entender a verdade sobre o abismo.