O Último Andar
O núcleo do Nível 8 uivava. O metal do ‘Sucateiro’ gemia sob a pressão gravitacional, e faíscas saltavam das juntas expostas como sangue de uma ferida aberta. Sora, com os dedos sangrando sobre o console improvisado, gritou através do estática:
— Kaelen, o sistema está purgando nossa assinatura! Se não reescrevermos a permissão de gravidade agora, seremos esmagados pela pressão do próprio andar!
Kaelen não respondeu. Seus olhos, injetados de sangue, processavam os fluxos de dados que a Torre tentava esconder. A transmissão da verdade sobre a ‘Bateria Humana’ estava incendiando os níveis inferiores, e a Torre reagia, tentando deletá-los como um erro de código. O chão sob eles tornou-se volátil, a gravidade distorcendo-se como vidro quebrado. Um estrondo metálico ecoou: a perna direita do frame foi arrancada por uma falha de renderização geométrica.
— Sora, agora! — Kaelen berrou. Ele não estava apenas lendo as permissões; estava reescrevendo a física do Nível 8. Com um movimento brusco, ele inverteu o vetor gravitacional. O teto tornou-se o chão, e as travas de contenção estilhaçaram-se, permitindo que o Sucateiro, manco e fumegante, se projetasse para o poço de ascensão.
O ar no poço tinha gosto de ozônio e desespero. Kaelen sentia cada vibração do frame como se fosse sua própria espinha dorsal. Acima, as paredes de metal vivo se reconfiguravam em padrões de defesa agressivos, bloqueando o caminho com placas de blindagem pesada.
— Kael, se continuarmos forçando os atuadores, o frame vai se autodestruir antes de chegarmos ao topo — a voz de Sora soava pelo comunicador, cortada por estática. Ela estava conectada diretamente à rede interna, um risco suicida que a deixava exposta ao contra-ataque do Diretor Hektor.
— Não temos escolha. A auditoria de purga chega em sete horas — Kaelen respondeu, empurrando a manete de potência. Ele ativou o módulo experimental. A dor subiu por seu braço como brasa, mas o ganho foi instantâneo: o mapa de calor da estrutura floresceu em sua visão, revelando um ponto cego na malha defensiva.
— Encontrei a falha — Kaelen gritou. Ele mergulhou o frame no vazio, usando a própria inércia da Torre para se impulsionar até a antecâmara do topo.
O holograma de Hektor pairava sobre o Sucateiro, seus olhos frios processando a telemetria como se Kaelen fosse apenas um erro de arredondamento.
— Você manchou a linhagem, Vane — a voz de Hektor reverberava, carregada com o peso artificial de décadas de autoridade. — Sora é apenas uma peça de reposição. Entregue o módulo, aceite o expurgo e eu garanto que o nome da sua família não será apagado.
Kaelen sentiu o calor do motor vibrar contra sua espinha. Ele não respondeu com palavras. Injetou o log de batalha proibido diretamente na rede pública, sobrepondo a imagem de Hektor com a verdade nua e crua: gráficos de drenagem neural, o consumo de energia dos cidadãos e a localização dos cabos de força que transformavam a Torre em um parasita.
— O privilégio morreu, Hektor — Kaelen disse, sua voz distorcida pelos alto-falantes externos, um rugido metálico que ecoou por todo o poço de ventilação.
Kaelen forçou o 'Sucateiro' através da última antepara. Sora, com a interface neural conectada ao console central, soltou um arquejo metálico.
— Kael, não é um centro de comando — ela disse, a voz trêmula. — É uma nave de fuga. O Conselho não está governando a Torre; eles estão drenando a energia neural de cada habitante para alimentar os propulsores de uma arca de metal que vai abandonar este mundo assim que a purga for concluída.
Kaelen olhou para o horizonte; a cidade, lá embaixo, era um emaranhado de hologramas de ranking que, pela primeira vez, piscavam em uníssono com o alerta de perigo. O topo da Torre não era um escritório, era uma plataforma de lançamento. Eles tinham apenas uma chance de quebrar o ciclo.