Gravidade Zero
O ar na câmara de contenção do Nível 8 tinha o gosto metálico de ozônio e desespero. Kaelen Vane estava ajoelhado, com os pulsos travados por algemas magnéticas que pulsavam em sincronia com o relógio de purga projetado na parede: 07:59:12. O brilho neon do cronômetro pintava o rosto de Kaelen de um vermelho doentio, o mesmo tom usado pelo Conselho para sinalizar ativos descartáveis.
— Sua dívida acumulada é uma ofensa à arquitetura da Torre, Kaelen — a voz de Hektor ecoou pelos alto-falantes, desprovida de humanidade. O holograma do Diretor flutuava no centro da cela, observando o frame de sucata de Kaelen, que jazia como uma carcaça inútil em um canto, com os cabos expostos como nervos arrancados.
Kaelen não respondeu. Ele estava focado na interface neural que ainda vibrava em sua nuca. O módulo experimental, retirado do Sucateiro, não era apenas hardware; era um parasita de código. Enquanto Hektor desfilava sua autoridade, Kaelen sentia as linhas de dados da Torre passando por baixo de sua pele. Ele não tentou forçar as travas magnéticas fisicamente. Em vez disso, forçou o módulo a injetar uma carga de feedback diretamente no nó de processamento da sala. O sistema da Torre, confuso pela assinatura de um código que não reconhecia, entrou em um ciclo de erro. As travas magnéticas estalaram e cederam, liberando-o.
Kaelen não perdeu tempo. Ele se arrastou até seu frame. O cheiro de ozônio era insuportável agora. Através do link de emergência, a voz de Sora soava entrecortada pela estática:
— Kael, o módulo está tentando se fundir com os terminais de dados. Se você não sincronizar agora, a carga vai fritar seu sistema nervoso!
Ele conectou-se. O feedback neural foi um soco no estômago, uma dor líquida que subiu pela espinha. O frame, uma montagem de peças de sucata do Nível 7, pareceu ganhar vida, vibrando em uma frequência que não deveria ser possível.
— Sora, hackeie as travas do pátio. Eu preciso de três segundos de gravidade zero — ordenou Kaelen, levantando-se enquanto o frame gemia sob o peso da estrutura.
O pátio de salvamento se abriu. À sua frente, o Campeão do Setor — um colosso da classe Aegis, polido e letal — aguardava. O placar holográfico acima da arena cintilava: Dívida Pendente: 84.000 Créditos.
— Ele é um erro, não um piloto — a voz de Hektor ecoou, amplificada para toda a Torre. — Apaguem o registro.
O Campeão avançou, um borrão de metal cromado. A gravidade no centro da arena despencou, transformando o chão em um poço de peso insuportável. Kaelen sentiu suas articulações cederem, mas o módulo experimental pulsou. Ele não apenas sentiu a mudança gravitacional; ele a antecipou. O código-fonte da Torre começou a fluir diretamente para sua interface neural. Ele não lutou contra a gravidade; ele a usou. Com um movimento que desafiava a física dos frames convencionais, Kaelen sobrecarregou o giroscópio, inclinando-se no ângulo exato da onda gravitacional. O Campeão, rígido em seus protocolos, foi pego pela inércia. Kaelen desferiu um golpe preciso, um movimento fluido que Sora nunca vira um frame daquela classe suportar. O colosso de elite colapsou, e o público na Torre entrou em frenesi.
Kaelen não parou para celebrar. Ele mergulhou no núcleo de processamento, forçando o módulo a perfurar a camada de criptografia final. O que surgiu no visor não eram registros financeiros, mas um fluxo de dados biométricos em massa. Milhares de assinaturas de energia humana, sugadas de cada andar, canalizadas para baixo como combustível para um motor que nunca deveria parar.
— Eles não estão nos mantendo aqui pela ordem social, Sora — Kaelen sibilou, sentindo o calor do processamento irradiar pelo cockpit. — A Torre não é uma cidade. É uma bateria. Nós somos a carga.
Ele não estava mais subindo. Ele estava cavando a saída.