O Andar da Mentira
O ar no subsolo da Academia tinha gosto de ozônio e metal queimado. Elias sentiu o Vanguard-Zero oscilar, uma vibração violenta percorrendo o chassi conforme o estabilizador de frequência — roubado há poucos minutos — forçava uma integração neural que o sistema original do frame nunca deveria suportar. Cada batida de seu coração era um pulso elétrico no cockpit; a dor era um lembrete visceral de que o módulo protótipo não estava apenas operando a máquina, estava devorando sua própria energia vital.
— Unidade 0-Zero, identifique-se. Acesso não autorizado detectado no Setor 4 — a voz de Vargas, fria e amplificada, ecoou pelas paredes de concreto reforçado.
Elias não respondeu. Ele ajustou as manetes com dedos trêmulos, forçando a energia do reator através dos condutores externos. Com um estalo de metal retorcido, ele rompeu a escotilha de serviço, emergindo na base da Torre sob o zumbido instável e proibido de seu frame modificado. Ele não era mais um cadete; era um fugitivo com a prova da corrupção da Academia em mãos.
O terceiro andar não cheirava a metal quente, mas a mofo e ao sabão barato que Marta usava nos domingos. A Torre, em uma tentativa de quebrar sua psique, havia replicado a sala de estar de sua infância. No centro, a simulação de seu pai se materializou, não como o homem que ele lembrava, mas como um avatar de combate com a mesma postura rígida que Elias aprendera a temer. O sistema da Torre, alimentado pelo trauma coletivo da cidade, tentava forçá-lo a uma dança de morte que ele já vira uma vez — a dança que terminou com a ruína de seu nome.
— Você é apenas um erro de cálculo, Elias — a simulação sibilou. O avatar avançou, os propulsores rugindo com a assinatura de energia que Vargas usava para aprimorar a elite.
Elias sentiu o módulo protótipo drenar sua vitalidade. Sua visão nublou, o sangue escorrendo do nariz, mas ele não recuou. Em vez de atacar, ele cravou as garras do Vanguard-Zero no piso da arena, não para lutar, mas para hackear a infraestrutura. Ele injetou os logs de batalha que roubara, sobrepondo a memória da Torre com a verdade nua e crua.
O ambiente fragmentou-se. As paredes de simulação da sala de estar estalaram como vidro, revelando a engrenagem oculta da Torre. Elias redirecionou o fluxo de dados para os telões da cidade. O público, antes sedento pelo seu fracasso, assistia em silêncio absoluto enquanto os registros de sacrifício, as listas de cadetes drenados e a prova definitiva de que Vargas usava o trauma da sua família como combustível para os frames de elite eram projetados em alta definição.
— Elias, pare com isso agora! — a voz de Vargas, desta vez despida de qualquer protocolo, ecoou pela arena.
O Vanguard-Zero estremeceu, os pistões gemendo sob a sobrecarga, mas Elias transferiu o controle neural para o sistema de transmissão, travando o sinal. A verdade estava lá, exposta: a Torre era uma fornalha de vidas, e a elite da cidade via o preço do metal que sustentava seu status.
O silêncio na arquibancada foi substituído por um rugido de tumulto. Vargas não esperou. O chão da arena se abriu, e um Vanguard-Class de liga negra, uma máquina de guerra proibida que ignorava todas as travas de segurança, surgiu das sombras. Vargas estava fundido ao frame, seus olhos brilhando com a mesma cor da corrupção que Elias acabara de expor. O predador avançou para o abate, ignorando as regras de ranking, enquanto Elias, com o Vanguard-Zero uivando em agonia neural, percebeu que a Torre não era o desafio, mas a elite que a mantinha de pé.