Além da Sucata
O metal do meu frame, o 'Sucateiro', não guinchou; ele soltou um suspiro metálico final, um estalo de juntas de titânio cedendo sob a pressão da sobrecarga. O ar na torre de transmissão estava saturado com o cheiro acre de ozônio e fluido hidráulico queimado, uma mistura que grudava na garganta como poeira de mina. Abaixo de nós, a cidade de Aethelgard via a verdade. A transmissão que eu iniciara, alimentada pela tecnologia biossintética proibida que Valéria injetou no sistema, não era apenas um vídeo; era a autópsia pública do Conselho da Academia.
Eu caí no concreto da plataforma, os pulmões ardendo. O zumbido dos drones de contenção da Academia, antes uma ameaça constante, agora parecia o som de um enxame sem rainha. Eles não sabiam se atacavam ou se esperavam ordens de um comando que acabara de ser desmantelado.
— Kaelen, mexa-se! — A voz de Valéria cortou o silêncio. Ela estava em um transporte de carga blindado, a lataria amassada e coberta de ferrugem, rompendo a barricada da Academia. — O Conselho caiu, mas os credores não. Eles são autônomos. A dívida de 520 mil créditos não evaporou com a corrupção deles.
Subi na cabine do transporte, o braço esquerdo latejando sob o peso da adrenalina. Valéria não perdeu tempo. Seus dedos dançavam sobre um terminal de acesso improvisado.
— Você não apenas expôs a corrupção — ela disse, sem desviar os olhos das linhas de código. — Você tornou a tecnologia biossintética parte do domínio público. Um fundo de investimentos externo, fora da jurisdição da Academia, comprou sua dívida por uma fração do valor. Eles não querem o dinheiro, Kaelen. Eles querem o que resta da sua mente após a interface com aquele frame. Eles querem a patente orgânica.
Senti o peso daquela cifra como uma âncora. Eu era um herói para as massas, mas para o sistema financeiro, eu era apenas um ativo em default. Antes que eu pudesse processar a traição da minha própria liberdade, uma sombra surgiu na entrada do hangar improvisado. Victor Thorne emergiu, não com a arrogância habitual, mas com uma palidez cadavérica. Suas vestes de elite estavam rasgadas, o brilho de sua linhagem extinto.
— Eu perdi tudo — Thorne disse, estendendo um drive de dados criptografado. — Meu clã foi desmantelado. Mas eu roubei algo antes de fugir: as coordenadas de um frame experimental de classe S. Eles o mantêm como reserva de emergência fora da zona acadêmica. Se você quer sobreviver à caçada corporativa que virá, você precisará de mais do que sucata.
Olhei para o drive e depois para Thorne. A rivalidade não tinha acabado; ela apenas mudara de escala. Aceitei o dispositivo, ciente de que ele estava me usando para se vingar, mas a necessidade de sobrevivência superava o desprezo.
Horas depois, nos portões da fronteira, o mundo exterior se revelou. Não era a utopia que a Academia prometia, mas um deserto industrial vasto e perigoso. O meu frame fora destruído, mas o ranking estava quebrado. Enquanto o comunicador de pulso de Valéria recebia um sinal agudo — um convite codificado para um torneio global de frames, revelando que a Academia era apenas um campo de treinamento para uma escada muito mais alta e letal — eu ajustei os controles do novo protótipo que Thorne nos entregara. A dívida de 520 mil créditos ainda era uma sentença, mas agora, eu tinha o poder para reescrevê-la. O horizonte de aço se abria diante de nós, e a verdadeira ascensão estava apenas começando.